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Ler e orar, orar e ler

Há muito tempo, orava, depois apagava a luz e dormia. Agora, antes de apagar a luz e dormir, leio. O que para mim não é muito diferente. Mas, às vezes, ainda oro. Não uma oração estabelecida, não. E nem dirigida a um Deus. Rezo como quem, no deserto, atira páginas de um livro ao vento. Como quem, com sementes, semeia o concreto. Oro não para que alguém me ouça, mas para ouvir a mim mesmo. Não aquilo que eu digo, mas o que reluto em dizer. Sobre ter alguém ouvindo meus clamores noturnos, estará Faulkner ouvindo minha leitura em febre? Na maioria das vezes, na madrugada, antes de dormir, oro para ouvir o que me cerca, rezo para habitar isso, para me habitar, para perceber o mundo que acho que pertenço. 

     Há alguns anos, faz muito tempo, antes de apagar a luz e dormir, eu beijava a Bíblia. Via-me curvado nos pés de um santo. Podia sentir o cheiro da terra do grande deserto. Meus dedos conheciam a aspereza e o pó dos pergaminhos. Eu trazia na ponta da língua palavras que até hoje não descobri os significados. Mas o paraíso era meu. Eu era um dos eleitos? - Contrariamente, hoje, isso me assusta.  Gosto da ideia de um Ser rejeitando o nirvana dado que decidiu seguir a humanidade em sua caminhada desenfreada - Hoje, beijo Balzac, Céline, Bataille, Sade, Baudelaire, Rimbaud, Verlaine, Hamsun, Villon, Bellow, Roth, Lobo Antunes, Cortázar, Nassar, Rosa, entre outros tantos. O que para mim é a mesmíssima coisa. Há alguma diferença entre o que anseia um santo e o que busca um homem? Estamos todos indo para onde exatamente? Bom.

      Quando estou lendo, chego a pensar que estou orando e vice-versa. Às vezes, antes de apagar a luz e dormir, ao término de mais uma leitura, sinto a necessidade de traçar algum gesto, sei lá: juntar as mãos, beijar as pontas dos dedos, riscá-los no ar, ou até mesmo algo mais elaborado, mas sempre acabo ficando no meio do caminho, então, apenas apago a luz e durmo.

      Para mim, leitura e oração estão entrelaçadas como numa trança de cores diferentes, mas partes de uma mesma mecha. Leio para mim e oro para mim. Não que eu não creia em Deus, não que eu O refute. Apenas não O entendo. Quer dizer, posso me intrigar com os exoplanetas, buscar informações sobre eles, até me emocionar com suas belezas distantes, mas nada posso afirmar sobre os ainda não descobertos, certo? O que quero dizer, é que apenas deixo Deus pra lá com os seus afazeres que, pelo que dizem os que dizem que sabem, são muitos e muitos, né?

 

 

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