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Noite de tantas noites.

Nada mais triste do que um hotelzinho de uma pequena cidade do interior, numa segunda-feira. É como estar à parte do mundo. Parece surreal o simples gesto de rabiscar, com um sentimento de desistência antecipada, minhas informações num papelzinho de campos impossíveis. Posso sentir o corredor frio em sua tentativa impossível de tornar-se familiar. Há estas paredes de cores indefinidas, os quadros tortos, o tapete vermelho que mais parece um batom nos lábios de uma morta. O homem a minha frente segue manso como se me levasse para uma emboscada. Abre a porta do quarto como se me oferecesse a melhor urna da sua funerária. Ri com uma timidez maquiada feito uma película que encobre a astúcia de um vendedor de armas. Quando fecho a porta, tenho a ligeira impressão de que daqui não sairei tão cedo, como no Anjo exterminador, de Buñuel. Giro em mim mesmo, em gestos imprecisos. Meu corpo pergunta-se – não minha mente – o que fará aqui? Que fim o trouxe a este tempo inacabado feito uma história, que de tão ruim, foi abandonada pelo seu criador?

     O sabonete, a toalha, o espelho parecem indícios de uma armadilha. Como se ao tocá-los penetrássemos um mundo ainda mais dentro deste que deve estar dentro de um outro. Este pequeno mundo onde nenhuma palavra arranca-o desta inércia pegajosa. O barulho da água não parece real – e o que é o real? – Quero dizer, é como se soasse de outro lugar. Como esses sons de tvs que nos chegam nas madrugadas e que não podemos precisar suas origens. Não tenho a certeza de sentir o líquido entre os meus dedos. Toco a toalha e me vem um cheiro indefinido como se todas as mãos e rostos ali esfregados exalassem do pano áspero de branco duvidoso. Sento-me na cadeira, e por não ter outra coisa a fazer no momento, olho pela janela. Pergunto-me quantos já não fizeram isso? Quantos já não tiveram essa sensação. Algo como o fim de uma estrada onde um passo a mais pode nos fazer despencar de nós mesmos. Pergunto-me quantos já não contemplaram esta paisagem que mais me remete a uma peça que nunca sairá do primeiro ato. Os telhados das casas parecem pastas marrons sobre segredos remexendo-se sob lençóis bem passados. As árvores – não muitas – quase não mexem – é um final de tarde quente feito entranhas inflamadas – Há esta ausência como a bocarra invisível e sempre faminta ruminando o tempo. E enquanto mais rumina, mais a sentimos, mais a vemos, mais nos enfronhamos em seus enredos. Não me refiro à ausência de alguém. – Como é antigo e cansativo o exercício de conceber o vazio deixado por alguém - Falo de algo ainda mais dentro. Refiro-me à falta de si mesmo. Ouço um cão ladrando? Talvez. Ouço um apito, vozes entrecortadas? Pode ser. Deito-me e olho o teto. Meus olhos se entretêm nas rachaduras e pontinhos pretos. Fecho os olhos, e como um condenado, espero o sono nesta noite de tantas noites.

 

 

 

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