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O dono da bola.

Havia os craques, os medianos, os ruins, os piores, e o dono da bola. Na hora de escalar os times ninguém queria o último. Porque ele não jogava nada mesmo. Mas se não o escalasse, para qual lado fosse, teríamos um problema. Ele era esforçado, sim. Ninguém podia negar, mas o fato é que não jogava mesmo nada. Podíamos colocá-lo como goleiro, que tomávamos muitos gols, podíamos colocá-lo como atacante, que não fazia gol nenhum, até podíamos colocá-lo pra jogar ao lado de um craque, que ele conseguia fazer este não jogar nada. Mas não havia jeito. Tínhamos de escalar o dono da bola, Caso contrário, não haveria bola, e assim, não haveria jogo.

       Na hora de montar os times, começávamos pelos melhores, depois, os medianos, os ruins – o dono da bola, já com olhos saltando das órbitas, olhava-nos, enquanto apertava ainda mais a bola sob o braço – por último, escolhíamos os piores. Bom, não havia mesmo jeito. Faltava o dono da bola. Precisávamos pegá-lo. Era mais um ato de benevolência enviesada do que uma decisão pela vitória do time. Ponto.

      E o jogo começava. E, lembro-me bem, nesse dia, o dono da bola estava no meu time. O azar já tinha nos pegado antes do primeiro apito do juiz, então, bem provável que ficasse com a gente até o final do jogo. E tomamos gols. E tomamos mais. E os craques logo ficaram desanimados, cansados, abatidos. O dono da bola, vermelho, com todo empenho, corria pra lá e pra cá, tomava a bola, mas logo perdia-a em seguida, levava por debaixo das pernas, xingava, respirava fundo, levava um chapéu, xingava de novo.

     Nós, já sem forças e com medo de levar ainda mais gols, rezávamos para o jogo terminar. O time adversário ria largo. Haveria ainda chances? Até que o dono da bola, de tanto tentar salvar o time – e só ele não sabia que isso não era possível – cometeu uma falta e o juiz lhe deu um cartão vermelho. Não, não era motivo para um cartão vermelho, mas até que ficamos satisfeitos. O dono da bola não entendeu. Ficou bem chateado. Esbravejou, apontou o dedo, cuspiu.  Tudo isso com a bola presa debaixo do braço. Por fim, depois de muitos argumentos da parte do juiz, conformou-se e foi sentar-se no banco dos reservas. Vermelho, ainda bufando, xingando, braços cruzados, ficou lá, atarracado em sua ira. Eu não entendia de onde ele tirava tanta energia. Jogava os dois tempos sem parar um minuto. Mas, lá estava ele, no banco, olhando para um lado e para o outro.

    Foi quando começamos a fazer gols. Um atrás do outro. E foi quando o outro time fechou a cara e guardou o riso largo. E foi quando nosso riso se abriu que nem uma flor. E tome mais gols. Enquanto comemorávamos um dos gols, todos juntos, embolados no meio do campo, pude, eu ali, sob aquele bando de marmanjos ensandecidos, suados e com hálito de mortadela e ki-suco, notar o dono da bola nos olhando. Os olhos esbugalhados. Estava furioso.

     Havíamos empatado com o time adversário. Mais um tempo, e só mais um gol, então, seríamos campeões. Quando o juiz apitou o recomeço do jogo e fui bater o centro, percebi que a bola havia sumido. Ué! Cadê a bola? Perguntávamos. Então, perplexos, podemos ver o dono da bola tomando o caminho de casa. Ia ligeiro como quem foge de uma maldição. Com a dita-cuja debaixo do braço, xingava o juiz, deus, nós, e o mundo todo. Ele ganhara novamente. 

    

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