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O sonho de Rimbaud

    O cheiro do incenso me levou para outros caminhos : o pequeno apartamento, o cheiro de creolina na garagem, os corredores turvos, os gritos e gargalhadas cruzando as paredes e nos chegando quase em perdigotos. O elevador puxando seus ferros como um fantasma arrastando grilhões, penas e mágoas. Mas nada, nada invadia aquela cápsula que nos protegia das lâminas afiadas de um futuro já tão perto. Era uma cápsula lânguida onde duas pessoas até conseguem ouvir os insultos do mundo, mas não veem nada além dos dois, ali, envolvidos pelos turbilhões de células. Vivendo aquele momento que nos dá a impressão de que o mundo pode ter lá boas intenções. Um refletido no outro como Narcisos ensandecidos, como Vênus enlouquecida com o seu próprio desejo. Às vezes, um grito zanzava pelos corredores, fugia por alguma fresta e perdia-se na madrugada. O que teria sido aquilo? Quem teria gritado? Mas o que isso importa?

    Entrelaçados, viajávamos nos nossos próprios impulsos, na nossa força, no devorar alucinado de alguns minutos, no morrer de alguns segundos. Aqueles segundos que buscamos a vida toda. A carne, a carne, a carne. Como contemplar a face de um deus. Era a Kundaliní ereta procurando livrar-se do peso do mundo.

    E no pico dessa viagem, ah, quando o sorriso também é lágrima, e quando não sabemos mais qual a função de tudo isso, que é quando o grito começa a inchar na garganta e a língua parece conter todos os sabores do mundo, podíamos ouvir as lamurias de ferro do velho elevador misturando-se aos nossos gemidos como se também quisesse participar do ritual.

    Depois, jogados, cada um no seu mundo particular, mas totalmente impregnado do outro a ponto de desconhecer o próprio cheiro, a própria respiração, o próprio sexo.
Abandonamos as pessoas, elas nos abandonam, o rio segue o curso de sempre, vai, mas as histórias nunca terminam. E para que elas recomecem é preciso muito pouco. Um cheiro de incenso. Aquele incenso que comprávamos na casa da menina hippie que sonhava em conhecer Zanzibar e realizar o sonho de Rimbaud.

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