Pular para o conteúdo principal

Perguntas sem respostas.

       Só muitos anos depois, soube que G e M haviam sido mortos. G quando tentava fugir, e M logo que saiu da cadeia. Este, depois de cumprir pena de alguns bons anos, voltava a vida e quando andava tranquilamente por uma feira livre – dizem que assobiava enquanto apalpava algumas frutas – foi morto por um dos filhos do taxista que, G e M, anos antes, assaltaram e mataram.

Às vezes me pego a pensar nisso. O que os levou a essa trilha enviesada? Lembro-me que quando meu pai estava em dificuldades eu corria para casa de G e M. Lá havia sempre um bolo de chocolate, um pão, um doce. Dona Maria, sempre com seu sorriso dolorido - o que seria aquela dor por trás daquele sorriso? - trazia-me uma guloseima qualquer. Brincávamos, assistíamos a desenhos em cores na tv deles, jogávamos bola. Depois eu voltava pra casa, meio que chutando o meu destino, como quem chuta tampinhas. Era sempre tarde, e eu gostava de olhar os insetos sob as luzes dos postes para ver que não era só eu que estava mesmo perdido na vida. O que os insetos realmente buscavam?

Entrava em casa e havia todos aqueles roncos. As pessoas não descansam nem quando dormem? Haverá descanso em algum momento? Minha irmã, sonâmbula, na madrugada, vez em quando queria ir para rua. Minha mãe pedia que eu calmamente a levasse de volta para a cama. Eu entendia a minha irmã. Eu também gostaria de ir pra rua, de ir embora. Meu irmão se mexia demais e falava dormindo. Vez em quando chutava a minha rede. Como vingança, de quando em vez, eu chutava a barriga dele. Mas tinha pena, porque ele gemia e eu não sabia se havia morrido ou voltado a dormir.

O pai de G e M fazia móveis por encomenda. E eu gostava de ir junto para entregá-los aos seus compradores. Eu gostava das mesinhas de centro, dos móveis de cabeceira. Os guarda-roupas, os armários, eram muito pesados. Mas era sempre uma tarde divertida, e o pai de G e M ainda me dava alguns centavos. Então, depois, comendo qualquer coisa comprada com os centavos, sentíamos a sensação de missão cumprida. Uma sensação que cessava logo que terminávamos de lamber os dedos. O pai de G e M também criava algumas vacas – no quintal – e vendia o leite. Eram vacas tristes e sonolentas. Penso que se as soltássemos na rua, ficariam paradas e seriam atropeladas ou logo voltariam para aquele cativeiro fedorento. Vez em quando eu pisava num monte de esterco. Era quando me sentia ainda mais na merda. Que vida. Por que Deus teve de trabalhar só seis dias e eu tinha de me matar a vida toda? Mas era legal olhar as vacas. Dava sono. Às vezes dava vontade de dar na cara delas. Na mastigação, a mandíbula inferior delas ia para os lados – como conseguiam aquilo? - Não pra cima e pra baixo como a nossa. A língua, como uma forma de trazer mais capim para dentro da boca melequenta, vez em quando, aparecia e era uma coisa nojenta. Elas mastigavam com aquele ar de ironia e desdém enquanto uma gosma descia pelo nariz e se misturava com o capim e o melaço que elas mastigavam. Devia ser um prato cheio pra elas.
G crescia, M engordava. O primeiro queria casar-se, o segundo não sabia ainda o que queria. Na verdade, nunca soube. Só engordava. O uniforme da escola cada vez mais apertado. E eles cresceram. Eu também. E isso foi muito rápido. E enquanto isso acontecia, eu estava longe. Não me lembro de ter partido. Só lembro que quando chegou a notícia muitos anos já nos separava de nossa infância. Penso sempre no que acontece do outro lado da cortina da peça da nossa existência. Vez em quando, como um ator, podemos dar uma olhadela e ver o movimento da plateia, ouvir os burburinhos, mas não conseguimos vivenciar tudo, algo sempre escapa. Nunca vou saber o motivo de eles terem seguido essa trajetória. Sei que cada um é dono do seu destino, mas a pena é que acabamos envolvendo outras pessoas em nossas escolhas. E às vezes, quem nem tem nada a ver com o pato. Só faço perguntas, mas não tenho mesmo respostas.
Esse navio fantasma, preso no fundo do mar, vez ou outra dá uma balançada, mas não chega a se desprender, fica lá em sua escuridão silenciosa. E eu vou seguindo a minha. Ainda olho os insetos sob a luz dos postes só para ainda saber que eu não sou o único perdido. Continuo perguntando-me o que buscam mesmo os insetos. Quando chego a casa, os meus sapatos ainda estão onde os deixei e só há apenas a minha imagem no espelho. Apesar de tudo, sinto uma leve saudade dos roncos e da minha mãe pedindo-me para, com cuidado, levar a minha irmã sonâmbula de volta à cama. Também sinto saudade dos chutes que meu irmão, em seus delírios oníricos, dava na minha rede. Mas sobre essas coisas eu também não tenho muito o que fazer. São outras perguntas sem respostas.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

obrigado, António Lobo Antunes!

Comecei a ler António Lobo Antunes pelo Memória de Elefante. É o livro de estreia do autor português. Logo que foi lançado, em 1979, tornou-se um grande sucesso de vendas. É fato que parte da crítica não o recebeu bem, mas, segundo o próprio Lobo Antunes, crítica nenhuma foi tão dura quanto a do seu pai, João Alfredo Lobo Antunes, quando, ao ler o livro, disse para o filho: “isto não é literatura” O Memória de Elefante não é um livro difícil como os que Lobo Antunes escreveu tempos depois. Mas toda essa complexidade que hoje é atribuída ao autor – e que ele nega – já está, de alguma forma, em gestação nesse livro: o estilo denso, a narrativa não-linear, fragmentada, o fluxo de consciência, a simultaneidade do tempo, e a poesia - sim, Lobo Antunes era um poeta. Como não? O que ainda não há nesse livro é a sobreposição de vozes: a polifonia. Esta, ele só vai utilizar, e de forma cada vez mais extrema e complexa, nos livros posteriores, como O Fado Alexandrino, A Ordem Natural das Coisas,...

a velha casa II

O jardim onde, nas brincadeiras, eu me escondia detrás das plantas espinhentas. Nas minhas primeiras incursões etílicas da juventude, eu tinha de pular o muro para que o portão, com seu incurável canto em falsete, não me denunciasse e meu pai se levantasse em seu arrastado de sono e fúria. A rua silenciosa, o apito do vigia, o Caravelo, mais lento que o andador da minha vó, prestes a cair sobre nós, ali, sob cobertores cheirando a amaciante e ferro de passar. Depois de rezar, em vez de dizer amém, eu dizia: “não amanheça, não amanheça”. Os dois lados escuros da casa – as lâmpadas sempre queimavam - que iam dar no quintal. Lá, a goiabeira onde chorei e sonhei e vi, dias sem fim, a menina sair do banho. O tilintar de pratos e copos dos vizinhos e a sensação de que dentro da noite eu estava protegido do mundo. Sobre a geladeira, o sarcástico pinguim que sabia mais de nós do que nós mesmos. Ali, em cima da velha cônsul asmática, ria a rodo dos nossos desencontros. A minha irmã sonâmbul...

a alça fria do peso da sua ausência

Quando meu irmão faleceu, não fui ao enterro. Adianto que não estou a justificar nada – e isso se justifica? -, mas é que meu pai havia morrido alguns meses antes e não vi mesmo força nenhuma para outra empreitada do nível ou pior. O que dói na morte não é somente a perda. Sabemos que, mais cedo ou mais tarde, morremos. É um acordo tácito, ou seja, antes de nascermos, não nos é apresentado um contrato no qual está escrito: “você vai nascer, passar um tempo – sabemos lá quanto – depois você morre. Assine aqui embaixo”. No curso da nossa vida, acabamos aceitando a ideia – aceitamos? – como um enfermo, uma hora, aceita a sua moléstia. O que machuca mesmo, e é aqui que a chapa esquenta, é a forma como a indesejada das gentes, como Bandeira gostava de denominá-la, tira-nos pessoas queridas. Melhor dizer nos arranca, sim? Porque é isso que ela faz. Lembro-me do meu pai, homem de voz de martelo de Thor com a qual até a casa se assustava. Mas era doce que nem os picolés de castanha da minha ...