Manu Rodriguez é um povoado para onde sempre vou quando as coisas por aqui ficam
complicadas. Quando ouço e não escuto, quando falo e não digo, quando olho e
não vejo, quando toco e não sei, quando como e logo preciso pensar o que pedi
de almoço, quando nem me sentei, e já penso no que vou ter de fazer ao me
levantar, quando as horas se convertem em comichões e o dia parece um novelo de
lã emaranhado dentro de uma gaveta, ou quando o sono da noite é fatiado em
postas muito finas, e, principalmente, quando a angústia começa a se maquiar
para a sua festinha particular.
Quando vou a Manu Rodriguez não levo quase nada: relógio, agenda,
telefone, nada disso. Lá, não precisamos. Um dia fui apenas com a roupa de
banho e saí de lá com calças, camisas, bermudas, toalhas que os nativos
costuraram para mim. Lá, em Manu, são os homens que costuram. E quando lhes
disse que não sabia costurar, quatro deles, bem animados, começaram a me
ensinar. Remetiam-me a adultos explicando, a um menino, as regras de um jogo
muito divertido.
Em Manu o mar é calmo. Parece muito contente com o lugar que lhe é
reservado. Vez em quando se assanha como um cachorro se espanando após o banho,
mas não passa disso. Depois encolhe-se e volta a dormir. Olho-o de longe, e
tenho a impressão de que posso caminhar sobre ele até onde me der na telha. As
cores do céu e do mar de Manu, às vezes, ficam tão próximas que chego a pensar
que os barcos estão de ponta-cabeça. Também, o tempo em Manu Rodriguez é
especial. Não é lento, nem veloz. Apenas é. Parece um rio. Posso contemplá-lo e
ao mesmo tempo vê-lo correr. Às vezes, até chego a pensar que poderia lavar as
mãos nele e ver o presente, o passado, e o futuro escorrendo por entre os meus
dedos.
Em Manu, os nativos me trazem peixes e me contam suas histórias. As deles
e as dos peixes. Gosto de vê-los tratando aqueles seres de prata. São movimentos
delicados e precisos. E quando fazem isso, sempre sussurram palavras
incompreensíveis. Um dia, quando os questionei sobre esses sussurros,
disseram-me que eram orações. Palavras de perdão e agradecimento. Antes de
entrar no mar, todos os meninos e meninas, aprendiam aquelas orações, e não as
esqueciam mais.
Não sei se exagero – talvez seja essa felicidade de estar em Manu
Rodriguez – mas sempre que mastigo uma das frutas de lá, sinto-me criança.
Talvez porque só as crianças sentem mesmo o gosto das frutas. Quando eu era
menino, comer uma manga era uma epopeia. Era o mesmo que ler a Ilíada. Eu me
lambuzava todo. Depois era uma manga atrás da outra assim como uma página atrás
da outra. Com o tempo, perdi o gosto da manga e de Homero. Mas sempre que estou
em Manu Rodriguez esse sabor volta. O sabor das epopeias.
Assim como a infância, Manu Rodriguez também é um lugar difícil de se
deixar. Uma parte fica, a outra vai embora. Mas a que fica, ensina a metade que
parte que o ir-se é apenas o preparar-se para a volta.
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