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Ofício

Um carpinteiro quando faz seu primeiro móvel é normal que este não saia lá grande coisa. Mas no curso desse ofício, todos os móveis posteriores serão melhores. É a lógica. Os primeiros pães de um padeiro, talvez não sejam tão apetitosos. O primeiro sermão do padre soará inseguro, ou mesmo o primeiro beijo de um adolescente não terá lá muito sentido, nem gosto. Mas com o tempo, os pães, o sermão, todos os beijos estarão a apenas um passo da perfeição. Porém com a escrita é diferente. Pelo menos para mim. Nunca vi um ofício o qual, enquanto mais se escreve, mais se tem dificuldade de escrever.
Antes, diante de uma folha em branco, meus dedos logo tornavam-se tagarelas, hoje, eles emudecem. Só muito tempo depois, como alguém que reza antes de uma refeição, ouço os primeiros estalos nas teclas, e mesmo assim, ainda titubeantes.
Diante de uma frase truncada, ou uma ambiguidade difícil de se desenroscar, ou na impossibilidade de encontrar aquela metáfora avançada, redonda, via que não podia ligar para alguém para pedir alguma ajuda. Sei que existe solidão maior, mas esta não é lá também muito fácil de se atravessar. Vi que, para esse tipo de situação, não existe mesmo um 0800. Para que eu continue seguindo, crescendo, preciso resolver isso sozinho. É o jogo. E já são lá muitos anos nesse ofício, ao qual Eugenio Montale denominou de Triste Maravilha. Mas sinto-me como se começasse hoje. Meus livros seguintes são sempre os meus primeiros livros. Sempre. cada livro, um livro. Um inferno sob a inércia dos anjos.
Hoje tenho mais medo da folha em branco do que do medo que um dia tive do meu primeiro beijo. E olha que eu tive muito medo deste.


- reynaldo bessa - sobre a escrita - trechos de entrevistas.

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