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Vai procurar o Helder.

Quando meu pai e minha mãe brigavam, ele costumava dizer: "fia, tá insatisfeita? vai procurar o Helder. Corre pros braços dele". Helder, dizem, foi um dos pretendentes da minha mãe quando ela era ainda mocinha e os rapazinhos começaram a rondar o seu espaço. Depois que meu pai apareceu, o Helder sumiu. Ninguém sabia que fim havia levado. Se tinha sido abduzido, ido para as arábias ou se atirado no mar, ninguém sabia. Nós o conhecíamos apenas de uma foto que minha mãe guardava. Vez ou outra, quando mexíamos em suas coisas, procurando sei lá o quê, achávamos a dita-cuja: um rapazinho franzino, num uniforme de soldado, rindo timidamente para a câmara. Minha mãe não a escondia. Estava ali entre tantas outras fotos da família. Na verdade, ela mantinha-a não para irritar o meu pai, não, era apenas para guardar um souvenir de um tempo que há muito se fora, essas coisas. Talvez, sei lá, também como uma forma de seguir confrontando sonho e realidade e, por alguns momentos, achar que saíra ganhando. As velhas doses homeopáticas da ilusão.

        Um dia, minha mãe pegou o velho olhando a foto. É. Isso não era novidade, como já disse, a foto ficava ali, só que dessa vez, ele a observava de forma diferenciada. Ele trazia-a bem perto dos olhos como se buscasse algo que ainda não havia percebido naquela cena já tão desgastada pelo tempo e pelos olhos de todos lá em casa. Parecia dizer: "deus, o que essa mulher viu nesse idiota?". Vez em quando, ria. Minha mãe logo arrebatou a foto da mão do meu pai. Fez isso, é certo, mais para valorizar o fantasma do que pela estima que tinha por ele. Sim, ela gostava de ter uma foto de um de seus pretendentes. Isso a enchia mesmo de orgulho, mas era isso e só isso. Nós sabíamos. Era bem provável que se um dia o Helder aparecesse lá no portão de casa, dizendo ser quem era, com certeza seria escorraçado por ela. Porque o Helder, seu pretenso namoradinho da sua remota juventude, era aquele da foto e ninguém mais.

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