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Viagem

Sentar-me no chão como há muito tempo não faço. Esquecer a idade, as formalidades, a fragilidade das juntas fustigadas pelo tempo. Apenas sentar-me e abrir todos os meus discos. Perder-me nas capas, nas fotos desbotadas, nos cabeludos que achavam que iam mudar o mundo. Colocar o vinil entre as palmas das mãos e girá-lo entre elas com a habilidade de um prestidigitador. Soprá-lo como um deus insuflando vida. Retirá-los dos plásticos com o cuidado de um arqueólogo diante de um frágil osso de uma espécie desconhecida. Ouvir algumas faixas como uma senhora provando os vestidos de sua juventude. Numa faixa, ponho-me em reflexão: cabeça baixa, olhar fixo como quem tenta contemplar um mundo específico dentro de um pequeno orifício no chão da sala. Noutra, ponho-me em rebuliço como se tentasse espanar a cabeleira que já não mais possuo. Como uma mulher nua, numa ventania, tentando segurar a saia. No pousar e levantar da agulha - ouvindo o chiadinho que, por segundos, deixa o meu coração preso na eternidade, suspenso como um pássaro congelado em seu voo - vou sendo sem ser. Como se morresse e renascesse a cada nova faixa. Eu, ali, um adulto – serei? – sentado no meio da sala, feito uma criança em meio a sua caixa de velhos brinquedos. E quando saio dessa dança parada, desse mergulho seco, desse ritual, desconheço o mundo que me cerca. Há uma coisa que é e não é ao mesmo tempo. Há um mundo no mundo. E por alguns segundos, não sei onde estou. Como alguém que sonha cavalgando um corcel e desperta com os solavancos, o vento na cara, e a pressão das rédeas entre as mãos. E já no mundo real - apesar da descrença - ainda dá alguns impulsos como tentativa de permanecer firme sobre o arisco e veloz animal.

 

 

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