Oh, domingos tão azuis e cheios de gente. Gente minha. Meu pai provava uma cachaça e logo fechava os olhos para não enxergar o tamanho do seu prazer, que era imenso. Meu irmão tinha passado em primeiro lugar na faculdade, e naqueles domingos isso era como ir à lua. Minha mãe com o pano de prato no ombro, e sempre que algum de nós dizia algo mais picante, ela rindo, tacava ele em nós nos enchendo de cheiro de alho e amor. Na vitrola, tocava Um Novo Tempo, do Ivan Lins, e isso nos dava uma vontade danada de pular nesse tempo. Ir embora dançando e cantando.
Ah, domingos , pássaros coloridos que vinham comer na nossa mão feito os vira-latas. Minha irmã nos mostrava a única nota azul no boletim, escondendo, com o dedão, todas as notas vermelhas, dizendo: tão vendo? tão vendo? E o vizinho gritando do portão, José , deu galo na cabeça, vim trazer o dinheiro. E meu pai dizendo, "entre, entre, tome uma e deixe o dinheiro. Vai ser para a festa de quinze anos da mais velha". E eu? Eu sorria com a força do meu melhor sorriso de dentes tortos do bruxismo das refregas dos meus índios e caubóis. Sorriso que de todas as formas o tento hoje e ele sai tosco como os sonhos dos adultos. Hoje sorrio sempre segundas, sextas, sábados, mas nunca domingos.
Oh, domingos de sol e de Kombi.
Tim Maia na vitrola botando todo mundo pra tamborilar os dedos sobre a mesa e remexer os quadris nas velhas e perigosas cadeiras da sala. Caetano enchendo a casa de Odara e Bahia. O que dava no mesmo. Oh, domingos, domingos, já não te fazem mais como antigamente.
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