De onde vem o cheiro
dessas fogueiras tão antigas?
fenda no tempo que o tempo não colou
Estou aqui – e o que seria isso/isto? – Longe, muito longe
quase além de mim mesmo
e esse cheiro a me levar pela mão.
A idade é um colar de contas.
Quebrado, despenca
Volta para o lugar de onde nunca deveria
ter saído.
Rugas desvanecem
lago acalmando suas águas
E o cansaço some como a noite afugentada pelo carro
de Apolo
Desnudo-me do que me tornei
- não há medo, nem vergonha -
Aspiro esse cheiro bom que vem das ruas
onde morei
Ouço o crepitar da madeira,
vejo as fagulhas
- insetos de fogo -
riscando a noite louca
São as fogueiras
Defronte a minha velha casa de guerra,
demolida, assim como eu
Esfrego as mãos
Sinto mesmo o calor
Dessas fogueiras.
Não é como renascer.
É saber que não morrerei mais
- não falo da coisa orgânica. Que se dane o corpo –
Falo do que sou
e que existe antes de mim.
Isso que não deixa as fogueiras apagarem.
As antigas, as antigas
Aspiro, enquanto pergunto-me onde ficará essa fenda
por onde passa esse cheiro que vem e me leva a mim
ah, se eu soubesse, ah, se eu soubesse
Como fazia para roubar mangas e goiabas do vizinho,
agachar-me-ia ligeiro, e sem pestanejar,
pularia para dentro.
Assim como fazia dos diques
da infância que
transbordava.
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