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Peito de pombo

Sou de outro tempo. O que fazer? As coisas eram assim. Nos reuníamos na calçada e contávamos quase tudo. Se eu dissesse algo, alguém poderia não curtir e resolveríamos ali mesmo. Eu não era amigo do Caetano no insta. Nãaaoo. Isso era impossível, inconcebível. Ele era um deus e deuses não comem paçoquinhas. Ora, Caetano era a outra fronteira, era a redescoberta da América. O que quero dizer é que tudo era tão distante e era bom imaginar ir até lá. Eu não mostrava as minhas espinhas. Isso era uma coisa que eu resolvia comigo, com o espelho, e com o escuro. Ter ego era uma coisa feia. Ser vaidoso não cabia muito. Podíamos ser, mas sob os lençóis cheirosos da mamãe. Bom, tudo é tão que não consigo ser pouco. Quero ser muito, mas não sou muito. Sou aquilo que me cabe, aquilo que me preenche, aquilo que faz o que eu sou. Nem um pouco além do risco que me desenha. Como é bom ser o que somos. Mas hoje, onde estou? Onde estou? É tanto eu que acho que sou ninguém. Um ninguém de peito de pombo que vai morrer sob a chuva.

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