Sou de outro tempo. O que fazer? As coisas eram assim. Nos reuníamos na calçada e contávamos quase tudo. Se eu dissesse algo, alguém poderia não curtir e resolveríamos ali mesmo. Eu não era amigo do Caetano no insta. Nãaaoo. Isso era impossível, inconcebível. Ele era um deus e deuses não comem paçoquinhas. Ora, Caetano era a outra fronteira, era a redescoberta da América. O que quero dizer é que tudo era tão distante e era bom imaginar ir até lá. Eu não mostrava as minhas espinhas. Isso era uma coisa que eu resolvia comigo, com o espelho, e com o escuro. Ter ego era uma coisa feia. Ser vaidoso não cabia muito. Podíamos ser, mas sob os lençóis cheirosos da mamãe. Bom, tudo é tão que não consigo ser pouco. Quero ser muito, mas não sou muito. Sou aquilo que me cabe, aquilo que me preenche, aquilo que faz o que eu sou. Nem um pouco além do risco que me desenha. Como é bom ser o que somos. Mas hoje, onde estou? Onde estou? É tanto eu que acho que sou ninguém. Um ninguém de peito de pombo que vai morrer sob a chuva.
Comecei a ler António Lobo Antunes pelo Memória de Elefante. É o livro de estreia do autor português. Logo que foi lançado, em 1979, tornou-se um grande sucesso de vendas. É fato que parte da crítica não o recebeu bem, mas, segundo o próprio Lobo Antunes, crítica nenhuma foi tão dura quanto a do seu pai, João Alfredo Lobo Antunes, quando, ao ler o livro, disse para o filho: “isto não é literatura” O Memória de Elefante não é um livro difícil como os que Lobo Antunes escreveu tempos depois. Mas toda essa complexidade que hoje é atribuída ao autor – e que ele nega – já está, de alguma forma, em gestação nesse livro: o estilo denso, a narrativa não-linear, fragmentada, o fluxo de consciência, a simultaneidade do tempo, e a poesia - sim, Lobo Antunes era um poeta. Como não? O que ainda não há nesse livro é a sobreposição de vozes: a polifonia. Esta, ele só vai utilizar, e de forma cada vez mais extrema e complexa, nos livros posteriores, como O Fado Alexandrino, A Ordem Natural das Coisas,...
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