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Um amigo de verdade

Borges dizia que o amor exige presença, a amizade não. Sei o que o autor argentino quis dizer. Sei que se trata de algo muito mais além das minhas chorumelas aqui, porém, com todo respeito a esse escritor - que muito admiro - penso que, na amizade, a presença é necessária sim, pelo menos, nos momentos cruciais. Foi o que aprendi a duras penas. Digo isso porque lembrei-me agora de um grande amigo. Eu havia me separado. Meu peito era um velho, vazio e bolorento salão escuro onde eu me escondia de mim mesmo. A solidão, naquele momento, era como hera crescendo em meu desespero. O Empanadas, na Vila Madalena sempre festiva, para mim, naqueles tempos, não passava de um túmulo. Esse meu amigo, com seus dois ouvidos sempre generosos ouvia-me como um bom padre ouve um condenado prestes a entrar no corredor da morte. E não é esse sentimento turvo, profundo, doído, e tão sozinho, bem no meio do peito, um corredor da morte? Bom, era assim que eu me sentia. Sabemos que ninguém morre de amor. A maioria escapa ilesa e vai continuar escapando, mas vai dizer isso para alguém que encontra-se em meio ao turbilhão de um fim sem fim. Na verdade, o que o cara quer - e sei lá por que - é mais um prego nessa crucificação.
Bom, do nosso lado, as pessoas no Empanadas seguiam em seus gritinhos, risos, brindes e felicidade pra lá de etílica, enquanto eu, e o meu amigo tentávamos nos manter centrados na superfície trágica dos meus desencontros. A minha ladainha derramava-se sobre ele feito uma manta gelada em pleno inverno Russo. E assim, ficamos, e assim, permanecemos.
A luz do dia veio como uma espada afiada em nossos olhos de insones ensandecidos. Os garçons colocavam as cadeiras sobre as mesas, enquanto, de esguelha, nos olhavam, vez em quando, como se não acreditassem que estávamos ainda ali. Eu contava minha odisseia pela enésima vez - a repetição é sim a característica mais destacada num fim. A dor de cotovelo é mesmo um velho disco riscado - eu seguia minhas trilhas já seguidas por mim: "mas por quê? por que isso, aquilo, aquilo outro? Mas se eu tivesse feito assim, e se eu tivesse feito assado, será que...será que...será que será? Então... então... mas por quê? E se...?
Saímos do Empanadas com o barulho das portas bem nas nossas costas. Pude ainda sentir o vento fedendo a ferrugem e graxa me arranhando os poros eriçados. Arrastei meu amigo para a padaria - também festiva - e ficamos até o almoço. Ele comeu. Eu apenas olhei o prato que me olhou de viés.
Enfim, chegou a hora de cada um seguir o seu caminho. - existe um limite para se torturar um amigo. E eu também estava cansado de mim - segui meu caminho com passo de cadafalso. Ou foi o caminho que me seguiu? Não posso afirmar.
Tive de carregar minha dor ainda durante alguns anos, como uma parede que vai caindo com as intempéries. Mas naquele momento difícil foi muito bom ter um amigo. Ah, como foi bom. Ele salvou a humanidade. Ora, muitas vezes só queremos falar como se conversássemos com nós mesmos. Às vezes queremos apenas um sorriso sincero, um afago, um aconchego, e sim, claro, até que passem a mão na nossa cabeça. Ainda melhor. Nesses momentos turvos, precisamos apenas de um "unhum", uma hora ou outra, quando falamos e choramos, ou quando choramos e falamos ou os dois ao mesmo tempo, com direito a catarro e otras cositas más. Não precisamos de julgamento, críticas, adendos a dedos, observações e tudo mais. Para isso, já temos os nossos tribunais internos. E eles nunca perdoam. Sei lá se Borges já passou por uma dessas. Vai ver que não.

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