Eu viajava com o meu pai. Gostava do cheiro do ônibus. Da sua luz acendendo a noite. Acordando as cidades sonolentas. Era como se fugíssemos de nós mesmos. O mundo todo lá dentro reduzido a duas poltronas e um corredor. Podíamos dar conta. Não podíamos nos perder ali dentro. Quando o ônibus parava, descíamos como estrangeiros. A noite amassada assim como as nossas roupas. Os ponteiros do velho relógio arrastando-se para dar conta das horas e o cheiro de pão e carne moída como a promessa de um anjo. Um vira-lata cruza as nossas pernas. Um homem boceja, uma criança dorme, um carro buzina. Gosto dessa sensação de nunca chegar. Meu pai rabiscando contas e eu contando estrelas. Estrelas não pagam as contas, por isso meu pai rabisca. Andrômeda feito a digital de uma criança. Um sopro na película escura e melosa do céu de sempre. O cheiro da poltrona, o ronco das pessoas, o ronronar da madrugada, o som da paz temporária. O ônibus indo e as paisagens passando feito páginas de um livro ao vento. Não sou de lugar nenhum. Não parto e não chego nunca. Sou apenas um ponto no infinito feito Andrômeda.
Comecei a ler António Lobo Antunes pelo Memória de Elefante. É o livro de estreia do autor português. Logo que foi lançado, em 1979, tornou-se um grande sucesso de vendas. É fato que parte da crítica não o recebeu bem, mas, segundo o próprio Lobo Antunes, crítica nenhuma foi tão dura quanto a do seu pai, João Alfredo Lobo Antunes, quando, ao ler o livro, disse para o filho: “isto não é literatura” O Memória de Elefante não é um livro difícil como os que Lobo Antunes escreveu tempos depois. Mas toda essa complexidade que hoje é atribuída ao autor – e que ele nega – já está, de alguma forma, em gestação nesse livro: o estilo denso, a narrativa não-linear, fragmentada, o fluxo de consciência, a simultaneidade do tempo, e a poesia - sim, Lobo Antunes era um poeta. Como não? O que ainda não há nesse livro é a sobreposição de vozes: a polifonia. Esta, ele só vai utilizar, e de forma cada vez mais extrema e complexa, nos livros posteriores, como O Fado Alexandrino, A Ordem Natural das Coisas,...
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