Quero a paz dos saveiros
A dança lânguida e muda das árvores
O vento de boas notícias
Quero a calmaria das águas profundas
O sol num ninho de cores
Quero o meu primeiro riso
A paciência dos móveis (os antigos)
Um dia para pensar o nada
Quero a determinação dos obeliscos
A leveza das folhas
O toque dos teus dedos ainda
Quero largar-me na grama e sujar o terno bem cortado
nu, sem pudor, correr na chuva
Ouvir o resmungo de rimas de minha vó
Quero, quero, quero
esta tarde numa moldura
Este dia num calendário antigo
Este momento feito um anel apertado na carne
Quero que você me deixe, (apesar de já ter-se ido há tanto tempo)
que você volte para você
que eu volte para mim e me perca novamente
Quero esse nadica de tudo
Aquilo que não faz falta ao mundo (e a ninguém)
Que me preenche
Quero reler Jubiabá sob a velha mangueira
- longe, o rumor do futuro -
Quero, quero, quero
Navegar na superfície de mim
e deixar que tudo mais afunde sob o peso
das inutilidades.
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