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Outrossim

Vários fatores contribuíram para minha paixão pela Língua Portuguesa. Mas posso me lembrar bem de um deles. Era eu - ainda com oito, nove anos - que escrevia as cartas do meu pai. Ele, num tom sisudo, ditava-as para mim. Eu tinha uma letra linda – adorava fazer exercícios de caligrafia - desenhava e gostava de ler. Nessa época, eu carregava sobre as costas o peso bigórnico da promessa. “Ele é inteligente, escreve bonito, desenha e gosta de ler. Vai sim, nos proteger das grandes tempestades vindouras”. Meu pai dizia.
Então, quando ele precisava escrever uma carta, logo me chamava, apontava uma cadeira e me entregava lápis e papel. Vamos lá. Ao senhor fulano de tal...e ia. Eu ouvia atento e, orgulhoso, imprimia tudo com atenção e esmero. Meu pai rodava pela sala, a cabeça metida em palavras engessadas endereçadas aos seus patrões engessados. E eu mandava ver...Por meio desta, venho solicitar...e ele ia.
Num dado momento, ele disse uma palavra que eu não a entendi de forma alguma. Então parei, como se não quisesse, logo de cara, admitir a minha ignorância infantil, e procurei a palavra no meu vocabulário de leitor mirim, mas nada. Que palavra era aquela? Eu me perguntava. De repente, vi meu pai parado, duro, me olhando como se eu tivesse roubado algo. Então, disse: “que foi, num conhece a palavra?". Eu, ainda não admitindo o meu desconhecimento daquela centopeia linguística, tergiversei um pouco, mirei o teto, olhei pela janela como se ela pudesse passar por ali, e já desesperado, escrevi qualquer coisa. Ele veio com tudo, e feito um anjo gordo prestes a me mandar, sem direito a julgamento, direto para o inferno, olhou o que eu havia escrito e soltou uma gargalhada assustadoramente engraçada. “Ah, eu não tenho estudo e conheço a palavra, e você que tem estudo não conhece a dita-cuja, né?” Disse ainda rindo. “Então, você não conhece a palavra Outrossim". Completou.
Depois disso, resolvi mergulhar nos significados das palavras. Fui estudar etimologia, filologia, linguística, gramática. Até hoje as persigo numa luta Sísifica.
Atualmente, sem mais o peso insustentável da promessa familiar, sem mais a responsabilidade de, feito um pássaro assustado, trazer no bico o futuro dos meus entes - mas nem por isso mais leve. Trago o peso dos anos, das lembranças. Não descansamos nunca – sempre que me deparo com essa palavra, baixo a cabeça como uma penitência frente ao altar turvo daquele tempo.
Bom, como revisor das redações do enem já há mais de sete anos, vi que os alunos resolveram tirar uma onda comigo. - é o que parece - Agora todos eles deram umas de utilizar, sei lá por que, a palavra outrossim. Ela salta nas redações feito orégano sobre pizzas. Eu já não dou muita trela. Adquiri o meu escudo e a minha lança contra ela. Abri todas as suas cortinas, fucei todos os seus compartimentos, conheço-a bem, outrossim, meu pai já não está mais aqui para soltar a sua risada assustadoramente engraçada sobre os meus ombros cansados.

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