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As estrelas têm ouvidos

Quando eu tinha 5 anos, meu irmão mais velho me disse que a Terra é redonda. Sim, estávamos em cima de uma bola, e o que era ainda mais assustador, rodando no espaço imenso numa velocidade tremendamente superior a velocidade de uma bala. Não só fiquei apavorado com a ideia de escorregar – por isso, firmei mais os meus pés – como também adquiri uma doentia expectativa de que algum objeto, a qualquer hora, pudesse me esmagar. Mas ele me tranquilizou. Disse-me que isso não era de hoje. Já era assim, há muito tempo, e pelo menos ninguém ainda havia sido esmagado e muito menos havia escorregado do planeta. Então, eu o questionei se já que era uma bola, redondinha, se eu a cavasse com minha tampa de alumínio da lata de leite Ninho, eu a deformaria. Acho que não falei assim, pois com 5 anos, com certeza eu não sabia o que significava “deformaria”, mas penso que me fiz compreender, pois ele, numa gargalhada, disse-me que não, não aconteceria nada além de eu me cansar e sujar os pés e as mãos. O planeta era muito grande, muito grande e uma das poucas coisas que eram vistas do espaço – pelo menos era o que os astrofísicos diziam – era a Muralha da China, que era enorme, mas aparecia pequenina como um brinquedo de uma criança. Às vezes, até mesmo não passava de uma mancha, assim como nós, da Terra, avistamos Andrômeda. Ele foi-se ainda rindo, e falando sozinho. Ele tinha isso de falar sozinho.
Foi numa conversa assim, num dia qualquer da minha infância anos-luz distante do que sou agora que me apaixonei pela astrofísica. As ideias apaixonadas só podem ser incutidas em outrem por apaixonados. Foi o que aprendi. Agora, vivo com os olhos no céu. Também dei umas de falar sozinho, sabe? Mas sei que as estrelas têm ouvidos, tem até cabeleiras

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