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Ouro de papel

Quando ando pelas ruas, entro em alguns lugares, não resisto a me agachar ou a esticar o braço para pegar uma carteira de cigarro vazia e jogada ali, numa calçada, deixada em cima de um balcão, largada num banco de ônibus ou de uma praça. Gosto do formato, do brilho. Aprecio o papel prateado, ah, o dourado. Encanto-me com o barulhinho que faz. Bem provável que mesmo que eu estivesse com o joelho dolorido, ainda arriscaria um malabarismo tosco para apanhar a carteira ali, sozinha, vazia e dando saltinhos pela força do vento do clima genioso de sampa.
Mas essa reverência bisonha não é de hoje. Preciso voltar alguns bons anos – quantos? Não importa - para tentar explicar esse fascínio por essas coisinhas vazias brilhando ao sol. Bom, pra começar, cada uma delas tinha um valor. Enquanto mais raras, mais valiosas. As carteiras dos cigarros Clássico, Hollywood, Continental, e outras desse mesmo tipo não valiam muito. Eram troco. Mas um Hilton, um Minister, um Carlton a coisa mudava de figura. Uma carteira de Hilton podia comprar 15 de Hollywood, 20 de Continental e 30 de Clássico. Então, se você quisesse ficar mesmo rico nesse universo imaginário tinha de ir atrás das carteiras mais raras. E naquela época, o lugar onde poderíamos mesmo encontrá-las era o aeroporto. Lá aonde iam e vinham pessoas do mundo todo, e que num gesto rápido e desapegado jogavam uma raridade lá das índias, dos States, bem no meio do hall de desembarque. Mas como entrar ali, deus, um bando de meninos risonhos e maltrapilhos, vestidos com calções feitos pelas mãos de mães generosas e pobres? Podíamos sim, ficar perto dos táxis e bem longe dos cassetetes dos vigilantes e esperar. A paciência foi uma coisa que aprendi lidando com esse tipo de aventura. Então, vez em quando, ouvíamos um estalo seco de uma carteira caindo no chão, ou víamos um homem, uma mulher, jogar alguma no lixo. Sim, fuçávamos o lixo. E naqueles sacos fedendo a nicotina, batata frita e ketchup, havia ouro, ouro de papel.
Mas alguns dos meus amigos, afoitos que eram, não se contentavam em ficar ali. Então, burlavam os vigias e logo estavam zanzando pelo hall. Iam ligeiros, espertos, olhando tudo. Sabiam que tinham pouco tempo. Mas um ou outro, passava disso, e apareciam fuçando os lixos dos restaurantes, dos bares, e até da pista de decolagem. Sei lá como chegavam ali. Então, voltavam ouriçados, orgulhosos. – quer dizer, às vezes, vinham com um vigia em seu encalço puxando-lhes pela orelha - e traziam as carteiras de cigarros mais raras do mundo. Nem conseguíamos pronunciar aqueles nomes estampados nelas. Podíamos pensar que uma daquelas poderia comprar todas as outras numa só vez. Chegavam com Luck Strike, Dunhil, Pilot, Miami, Pierrre Cardin, Merit, Turmac, Gabinet, Treasurer, San Moritz, Ducados, San Marino, Porto, Export, Negritas, e até um Marlboro, que naquela época era uma raridade, além de ser uma carteira linda, elegante. Às vezes, até ainda havia alguns cigarros em uma delas. Mas estes, na volta, dávamos aos doidos lá do asilo. Os malucos, trêmulos e sozinhos, recebiam os cigarros e logo desapareciam em seus mundos particulares. Iam perdidos em tragadas de afogados.
Então, voltávamos para casa muito ricos. Nossos pais continuavam pobres, mas nós estávamos milionários. Podíamos comprar as coleções inteiras dos outros colegas. Os meninos asseadinhos que as respectivas mães não deixavam ir além do batente da casa. E foi assim durante muito tempo. E poderia ter ficado assim. Para que crescer? Coisa chata isso, não? Perambular por aquelas ruas, entrar no aeroporto e sentir aquele friozinho na barriga, sentir o cheiro de perfume bom e ar-condicionado era uma coisa boa demais. Era como tirar os sapatos da dura realidade machucando os nossos pés.
Ainda fui ao aeroporto muitas vezes, mas com o tempo fui perdendo o gosto pelas carteiras e logo comecei a observar os aviões. Suas subidas e descidas. Mas isso não era o melhor. O melhor mesmo era pensar: “para onde estão mesmo indo? Será que desaparecem no arco-íris?”. Então, um dia resolvi subir num daqueles aviões. Não, não desapareci no arco-íris, apenas cresci e fui cuidar da minha vida de gente grande. Bom, agora, estou aqui, desmontando uma carteira de cigarro para deixar igualzinha a uma cédula de dinheiro, como fazíamos. Mas não estou mesmo conseguindo. Assim, depois assim, talvez, assim. Eu consigo, eu consigo...

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