Peguei um táxi de um motorista que já não aguentava mais esse tipo de trabalho. Estava na tampa. Bom, e eu estava atrasadíssimo. E quando estou atrasado fico nervoso. Quer dizer, gosto de chegar aos meus compromissos muito tempo antes. Mas eu estava mesmo irritado. E a vida é uma constante lição. O taxista podia ouvir os meus lamentos e reclamações no banco de trás. E ele conhece muito bem o trânsito de uma sexta-feira em sampa. Ele mantinha os ouvidos em mim e os olhos no congestionamento que se formava. Ora, ele era o capitão Ahab do seu táxi. Então, não me aguentou - poxa, ele tinha uns 78 anos - e me entregou a outro taxista. Mas este, Deus, não ouvia. Precisei falar o endereço umas três vezes. Quanto mais eu falava, mais ele aproximava o rosto grande dele na direção do meu. Se eu tivesse repetido o endereço pela quarta vez, ele teria beijado a minha boca.
Bom, o meu taxista anterior - acho - entendeu o que acontecia e me pediu para entrar novamente no táxi dele. Viu que ali a coisa num tava mesmo boa. Eu também percebi no que estava metido e relaxei: ok, vamos viver a vida. Cada momento conta. Foda-se o compromisso. Eu estou num táxi e há um congestionamento monstro a minha frente e é essa a realidade, então, sente-se aí atrás e fique calado.
Depois daí foi um pedido de desculpas de ambas as partes. Ele se lamentava, eu me lamentava. Poxa, ele era um cara sofrido. E se olhar bem todo mundo é sofrido. Eu sou sofrido. E quem não é não está no Orco, amigo. Porque quando o diabo caiu do Paraíso arrastou o ser humano junto. E agora, Deus sempre nos pede o RG. Há sempre um entrave no caminho da nossa evolução. Mas o motorista mudou quando eu disse que é esta vida louca que nos consome. Aí, ele passou a ter vinte anos. Manteve os olhos no retrovisor do seu passado e me contou histórias lindas. No volante do táxi, pude ver um menino de 14 anos guiando, escondido, o jipe do pai. E ele ria, sem dentes, e o riso dele era lindo, e eu ria com ele. E eu relaxei. E deslizei no banco. E disse: foda-se capitalismo de merda. Eu sou apenas um e não vou lutar contra o seu exército de destruição. Vou ficar aqui, como um pássaro que precisa esperar passar todo o inverno. Vou me aboletar nesse banco como uma hipoteca que nunca poderei pagar. E o taxista ria sem dente. E era mesmo lindo o riso dele. E nem vi o congestionamento, e nem vi quando ele chegou. E me espantei quando ele me disse: "é aqui o seu destino". Então, logo retruquei: mas que destino?
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