Meu irmão costumava
acender o cigarro e logo apagar o fósforo
em abanos desesperados como se estivesse queimando a mão.
Depois, apertava o cigarro entre os dedos
como quem traga um dos segredos da vida.
Então, deitava as costas no espaldar da cadeira de balanço
como se ali fosse dormir o sono tão almejado
Eu o olhava de longe,
com tantas perguntas,
com tantas perguntas
Nunca as fiz
Nunca as fiz
Agora nem ele, nem a cadeira de balanço
- nem eu -
que se foram em uma das tantas mudanças
E agora, o cigarro em meus lábios,
entre os dedos também
e ainda as perguntas
as perguntas que nunca as fiz
e por que fá-la-ias?
ora, eram perguntas impossíveis e por isso
eram também as respostas, no mínimo,
impossíveis
Nas ruas sem mais ninguém
- até talvez sem a mim mesmo -
quando toda ânsia cansa,
quando toda busca cessa,
quando o eterno passa
vou até a varanda e acendo um cigarro
e enquanto trago
- trégua? -
vem essa coisa,
meio magma,
meu estigma,
meio nada
essa coisa amorfa
quase eu
quase algo.
essa coisa afago
quase nós.
Fumaça.
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