Depois do jantar, íamos para a calçada
falar sobre o novo disco do Ednardo,
do Belchior, do Caetano.
Esperávamos semanas por uma carta.
- algumas nunca chegaram -
Até onde podíamos, escondíamos as nossas mazelas
Sozinhos, sob os cobertores, chorávamos os amores impossíveis
Na adolescência, comprávamos revistas duvidosas,
e com mãos trêmulas, de culpas e desejos,
rasgávamos o plástico e então,
elas apareciam numa nudez escondida.
Mexíamos as páginas no afã de vê-las ainda mais.
Falávamos com elas, doía a solidão de papel.
Os pais tão novos, tão vivos nos prometendo
aquilo que nunca cumpririam.
Menino, vem jantar!
Era minha mãe cheirando a alho e óleo.
Meu pai cheirando a trim
minha irmã chorando com as pontas dos lápis que sempre quebravam
Dorothy Lamour na radiolinha vermelha
A casa velha cansada de nós
Eu gostava das goteiras. Ora, podia, da minha cama, ver a lua
vazando por elas feito o olho gordo das promessas sem futuro.
Eu não acreditava. Preferia não acreditar. Não acreditava
Então, o sono vinha, e feito a mão de um anjo gordo e triste,
me lavava a alma por algumas horas.
Então, as muriçocas faziam a festa.
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