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Água-Vida

Como leitor voraz, por muito tempo, resisti à Clarice. Sei lá por quê, apenas resisti. Talvez porque falassem muito dela. Todas as mulheres pareciam ser Clarice. E algumas eram, não a Lispector, mas Clarice. Muitos leitores proferiam frases que não eram da autora. Não que eu a lesse, já disse, não a lia, mas via, em outros livros, teóricos negando a origem das máximas. E outra, sem saber se eram ou não de Clarice, eu não gostava das frases.
    Clarice disse uma vez, quando lhe emprestaram As Reinações de Narizinho - um livro que idolatrava - que ela procurou imaginar, vez em quando, que não o tinha à sua cabeceira, só para ter de novo e de novo a prazerosa certeza de que o tinha, sim, bem ali. Então penso que eu resistia a ela para ter a certeza de que estava ali, bem na minha frente, desafiando-me sempre e sempre.
    Clarice me pegou por um dos seus contos: "Os desastres de Sofia" - autobiográfico - . Um conto perfeito. O li de uma assentada e logo em seguida o reli feito um faminto que lambe o prato. Depois vieram todas as outras obras, devoradas com sede sob o sol do meio-dia do meu deserto. Todos, desde Perto do Coração Selvagem, seu primeiro livro, passando pelo experimental GH, até o místico e mágico e último A Hora da Estrela. Nesse meio tempo, fui lendo biografias e mais biografias. - a da Teresa Montero (À procura da própria coisa - Rocco) é incrível - Ah, aquela vida dura e louca dos Lispector me partia o coração. A Ucrânia em guerra, a revolução Russa, a perseguição, as privações, o antissemitismo em sua semente mais turva, doída e feia.
    De alguns anos para cá, leio tudo de Clarice, tudo. Li até o seu O Mistério do Coelho Pensante, que ela escreveu sob a intimação do seu filho, ainda pequeno, Paulo. Leio, releio e treleio O Ovo e a Galinha, que até os seus últimos dias, dizia ela, ainda não o tinha compreendido. Por isso era um dos seus prediletos. Qual escritor diz que não compreende uma obra sua? Só a esfíngica Clarice. Nela, a sofisticação e a humildade entrelaçadas como numa dança. Só Clarice, uma escritora pra dizer que não era profissional, - começou escrever aos 13 anos - era amadora sempre e sempre seria, para que a sua liberdade fosse preservada. Só Clarice, escritora grandiosa, sob o tão apregoado manto do hermético que ela, taxativa, afirmava sempre que de hermético ela não tinha nada. "Eu me compreendo muito bem". Dizia no seu jeito tímido e ousado de ser Clarice.

    Mas escritoras grandiosas, de tão verdadeiras, livres, abertas, profundas não trazem mesmo suas chaves no cabide. Ás vezes, estão bem na nossa venta. Clarice era um claro enigma. Ou como dizia Drummond quando da morte da autora: "veio de um mistério e partiu para outro". Clarice era a própria vida, uma Água-Vida. Sem contar que era linda.

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