Pular para o conteúdo principal

A palavrinha mágica

É comum em entrevistas o jornalista perguntar por que escrevo. Não fico procurando respostas geniais para alimentar o sorrisinho do jornalista nem para manter a pecha de genial. Muito menos, pra me livrar do engodo, faço como Faulkner que costumava responder que escrevia por dinheiro. Um pouco sim, claro, é um ofício, mas quem só escreve por dinheiro já perdeu há muito a noção da coisa. E o Faulkner não perdeu. Então, apenas olho para um lado, para o outro e respondo que essa coisa de escrever começou como diversão, sei lá, depois virou patológico. Estou sempre atrás de algo para escrever. É insano. Sou viciado na coisa, sou fissurado na tinta de impressão ou no movimento elétrico dos dedos. Gosto de encarar a dúvida se vou ser mesmo capaz de imprimir aquilo que estou pensando e que já está se perdendo enquanto estou pensando. Muita coisa acontece no ato da criação. É um desafio constante. Às vezes, me dá vontade de mandar tudo para o espaço, mas seria o mesmo que tirar a banqueta que está sob os meus pés, na forca, entende? É isso que respondo, e ele acha que estou exagerando. Vai, talvez esteja, um pouco, mas é assim que me sinto. Claro que há aquela sensação boa quando você acerta uma frase, diz aquilo com tua voz, sem seguir ninguém, quando você percebe que há um pouco da tua pele, do teu cheiro, do teu sangue na coisa, sabe? É uma sensação muito parecida com fazer amor e, ai depois de tudo, você cai para o lado. Não cai como um gesto de abandono a pessoa do teu lado, mas sim de gratidão, mas sim, porque você precisa desfrutar, sozinho, pelo menos, a metade dessa sensação para só depois comungar o gosto dela com alguém, entende? Sim, tem tudo isso, mas em tese a coisa é doida, doída. Digo isso, e o cara fica lá esperando que eu diga a palavrinha mágica. Não tem palavrinha mágica, meu amigo. O ofício da escrita é um dos poucos que quanto mais você aprende, menos sabe. Não é como o marceneiro - com todo respeito a este ofício - mas quanto mais esse profissional faz o móvel, melhor ele fará o próximo, entende? Pelo menos foi isso que um deles me disse uma vez. Então, porque o móvel é o móvel. Tem quatro pernas, ou três, sei lá, uma base, gavetas. É um móvel, compreende? Porém, cada texto é um texto, cada ideia, uma ideia. E há as perguntas de sempre: sobre o que escreverei e como o farei? Serei capaz? Preciso mesmo dizer isso? Qual a relevância disso? Porque nada muda nada, sabe? O resto é silêncio. E o cara ainda lá, me olhando com uma sobrancelha erguida como uma vírgula lutando pra ser um ponto de interrogação. E aí, não sei mais o que dizer. Fica aquele silêncio, então pergunto se tem um cafezinho. Ele, de repente, assobia - logo penso que vai entrar um cachorro pra me devorar. Era assim que antigamente, faziam com os mensageiros que traziam notícias ruins. Recebiam a mensagem e depois lhes decepavam o pescoço ou os jogavam aos cães e lobos - e logo aparece uma senhorinha simpática, vem com café, me chama de filho, e aí, me pego a conversar com ela, e aí, não quero mais parar. E ela nem me pergunta e eu tenho todas as respostas na ponta da língua para ela, tudo flui. A coisa muda completamente de figura. O Mia Couto é que tá certo. Vê uma rodinha de literatos e já vai logo dizendo: "Olha, sou biólogo, viu?". É isso.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

obrigado, António Lobo Antunes!

Comecei a ler António Lobo Antunes pelo Memória de Elefante. É o livro de estreia do autor português. Logo que foi lançado, em 1979, tornou-se um grande sucesso de vendas. É fato que parte da crítica não o recebeu bem, mas, segundo o próprio Lobo Antunes, crítica nenhuma foi tão dura quanto a do seu pai, João Alfredo Lobo Antunes, quando, ao ler o livro, disse para o filho: “isto não é literatura” O Memória de Elefante não é um livro difícil como os que Lobo Antunes escreveu tempos depois. Mas toda essa complexidade que hoje é atribuída ao autor – e que ele nega – já está, de alguma forma, em gestação nesse livro: o estilo denso, a narrativa não-linear, fragmentada, o fluxo de consciência, a simultaneidade do tempo, e a poesia - sim, Lobo Antunes era um poeta. Como não? O que ainda não há nesse livro é a sobreposição de vozes: a polifonia. Esta, ele só vai utilizar, e de forma cada vez mais extrema e complexa, nos livros posteriores, como O Fado Alexandrino, A Ordem Natural das Coisas,...

a velha casa II

O jardim onde, nas brincadeiras, eu me escondia detrás das plantas espinhentas. Nas minhas primeiras incursões etílicas da juventude, eu tinha de pular o muro para que o portão, com seu incurável canto em falsete, não me denunciasse e meu pai se levantasse em seu arrastado de sono e fúria. A rua silenciosa, o apito do vigia, o Caravelo, mais lento que o andador da minha vó, prestes a cair sobre nós, ali, sob cobertores cheirando a amaciante e ferro de passar. Depois de rezar, em vez de dizer amém, eu dizia: “não amanheça, não amanheça”. Os dois lados escuros da casa – as lâmpadas sempre queimavam - que iam dar no quintal. Lá, a goiabeira onde chorei e sonhei e vi, dias sem fim, a menina sair do banho. O tilintar de pratos e copos dos vizinhos e a sensação de que dentro da noite eu estava protegido do mundo. Sobre a geladeira, o sarcástico pinguim que sabia mais de nós do que nós mesmos. Ali, em cima da velha cônsul asmática, ria a rodo dos nossos desencontros. A minha irmã sonâmbul...

a alça fria do peso da sua ausência

Quando meu irmão faleceu, não fui ao enterro. Adianto que não estou a justificar nada – e isso se justifica? -, mas é que meu pai havia morrido alguns meses antes e não vi mesmo força nenhuma para outra empreitada do nível ou pior. O que dói na morte não é somente a perda. Sabemos que, mais cedo ou mais tarde, morremos. É um acordo tácito, ou seja, antes de nascermos, não nos é apresentado um contrato no qual está escrito: “você vai nascer, passar um tempo – sabemos lá quanto – depois você morre. Assine aqui embaixo”. No curso da nossa vida, acabamos aceitando a ideia – aceitamos? – como um enfermo, uma hora, aceita a sua moléstia. O que machuca mesmo, e é aqui que a chapa esquenta, é a forma como a indesejada das gentes, como Bandeira gostava de denominá-la, tira-nos pessoas queridas. Melhor dizer nos arranca, sim? Porque é isso que ela faz. Lembro-me do meu pai, homem de voz de martelo de Thor com a qual até a casa se assustava. Mas era doce que nem os picolés de castanha da minha ...