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Carnaval, Pavlov e rejeição

Sempre que é carnaval logo me lembro do Pavlov. É, aquele que criou a Teoria dos Reflexos Condicionados, que fez experimentos com o cachorrinho que saliva toda vez que ele toca a sinetinha. Ah, pois é, sempre que é carnaval, escuto essa sinetinha. Carnaval, Pavlov, cachorro, sineta, reflexos condicionados, sim, tudo isso parece uma amálgama bizarra, e é mesmo, mas é assim que entendo a coisa toda vez que é carnaval. Há tanta alegria lá fora, (apesar de que sempre chove), os foliões são tão sorridentes, os confetes e as serpentinas caem sobre nossa cabeça como se anjos risonhos soltassem as coisinhas lá do céu nublado. Ah, as caixas, os bumbos, os surdos, os enfeitiçados tamborins, e os gritos das pessoas, tudo nos convida a sair e a cair na gandaia e morrer sem pena na mesma noite. Ora, é carnaval, a apoteose da alegria, a divinização do deus-carne, os quatro dias de desforra dos martírios diários dos escritórios bolorentos, dos salários minguados, das comidas de rabo e puxadas de orelha. Sim, é a festa para que a coisa não quebre de vez e continuemos na mesma mesmice. Os donos do mundo sabem disso. A diversão faz parte do projeto para amansar o instinto de rebeldia. Mas deixa pra lá, vamos pensar na cerveja gelada, nas meninas bonitas, que sem nenhum pudor, mostram-nos os caprichos de deus. É, porque em algumas pessoas, o cara lá de cima parece que tava mesmo inspirado. E sobre as fantasias. Bom, parece que a cada carnaval vamos mais e mais abdicando das roupas, dos acessórios como se a fantasia-objetivo-mor fosse a de Eva. Mas tudo bem, melhor de Eva para Eva do que do pó para o pó. Vamos pra gandaia: sorriso na cara, copo para cima, axilas ao vento, e a música mais barulhenta e mais bizarra na ponta da língua. E os olhos? Os olhos nos caprichos de deus. "Alalaô...ôôô". perdão..."senta, senta, aqui, vem meu capot de F...". não sei o resto. Ainda não aprendi. E não vou aprender, pois, como dizia, sempre que é carnaval me vem à cabeça esse senhor. Sim, o Pavlov. Pois é, ele e a sua maldita sineta.     Explico. Quando eu tinha dezoito anos, fui brincar o meu primeiro baile de carnaval. Antes disso, meu pai não me deixou ir de jeito algum. Eu ouvia os tambores e as cornetinhas bem de longe e ficava imaginando coisas e mais coisas. Mas eu não fui ao meu primeiro baile porque, enfim, meu pai deixou. Não. Fui porque estava apaixonado. E a paixão me deixou mole como quem cai doente, mas, ao mesmo tempo, pode enfrentar o mundo todo. Sensação esquisita, viu? Uma coragem medrosa, uma covardia valente, uma força sem força alguma, sei lá.     Bom, eu estava no baile e sorria ao vento. Meus primos me arrastavam. Íamos numa onda de união, uma massa só. As serpentinas caíam sobre todos nós feito os cabelos encaracolados dos anjos. Ela, com uma gargalhada cheia de perdigotos - pareciam girassóis caindo do céu bem sobre o meu rosto - colocou um colar havaiano no meu pescoço, e logo me arrastou como quem tasca a sua parcela de mundo. Senti-me como um rei coroado. Meu primo me piscou o olho. Havia um sorriso malicioso naquele olho. E talvez ainda mais havia naquele olho sob o tapa-olho de pirata dele. Devia haver tristeza no mundo, mas para fora daquele clube. Ali dentro só havia espaço para a alegria.     Bom, a história é longa, e o carnaval só dura quatro dias - em alguns lugares não acaba nunca, sei - mas.... bom. Ela foi-se com outro menino. Não olhava mais pra mim. De repente, não mais me notava. E nem precisava, pois eu já não existia. Eu nem estava mais ali. Agora eu era um estorvo de mim, arrastado pelos foliões que não abriam por nada mão da sua alegria.     Fui embora, sozinho e ouvindo meus próprios passos dentro da noite longa e sozinha. Longe, longe, bem longe de mim, eu ouvia as cornetas, os surdos, os tamborins acompanhados pelos gritos e gargalhadas daqueles que ainda permaneciam felizes. Ela e o menino bonito faziam parte dessa turma feliz. O som, aumentando e diminuindo, parecia um navio afundando no mar.     A quarta veio com as cinzas. Eu era as cinzas da quarta cinzenta. Dia estranho, de descanso e de trabalho ao mesmo tempo. Depois do meio-dia você volta a ser você novamente. Pelo menos, tenta. Nenhum pecado é mais permitido. Agora, querido, tens de andar na linha.     E todo ano é assim, quando ouço o grito do sábado gordo (que está de dieta) , quando ouço os tambores, cornetas e tamborins, lá vem o Pavlov passeando na rua com seu cãozinho salivento. E então, o cara toca a sineta. E lá estou chorando em pleno carnaval. Coberto de confetes, serpentinas, lágrimas e solidão em meio a todo aquele povo se rasgando de alegria. A menina bonita e o menino sortudo nem sei que fim tomaram na vida, mas, em meu peito, permanecem jovens e felizes.     Bom, por essas e por outras, agora fico aqui, escrevendo e escrevendo. Mas vez em quando, vou lá na janela e, sutilmente, balanço os pés na tentativa de acompanhar a temporária alegria de todos estes foliões aqui, pelas ruas. Parece que é preciso viver intensamente esses quatro dias do ano, para depois, morrer os outros 361.

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