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Crônicas não mais.

Decidi escrever ao editor do jornal dizendo que não iria mais lhe enviar crônicas. Disse-lhe que sei, sim, é apenas uma por semana, mas também argumentei que nela permaneço preso os sete dias. Na minha cabeça fica ribombando a pergunta: “sobre o que escrevo? Sobre o que escrevo? Sobre o que escrevo? Até que caia uma ficha sobre o que eu realmente vou abordar, meu deus, a pergunta não descansa. E outra, não consigo dormir. E se ouço o vizinho discutindo com a mulher, lá estou eu, feito uma fofoqueira, querendo arrancar coisinhas as quais eu possa usar depois na minha crônica da semana. Sacana! Procuro pegar algumas palavras, as mais impactantes, evidentemente: “faz tempo", “onde estava?”, “isso é hora?”. Paro um pouco, tento juntar tudo, mas não rola. Vivo de banalidades, sei, mas isso é banal demais. Ligo a tv e logo tento fisgar algo: o cabelo do apresentador, a voz de fumante da âncora, a dentadura do entrevistado, qualquer coisa. Não dá. Esse negócio de buscar o que escrever é muito pesado. Paranoia total. Alguns tiram de letra, para mim é um martírio. Sempre acho que não vou conseguir. O prazo é um pesadelo intermitente. Daqui a alguns dias, logo o telefone vai começar a tocar sem parar. Editores, quando chega o prazo de receberem o texto, são mais cruéis que cobradores de telemarketing. Te vencem pelo cansaço. Uma hora você paga até o que não deve.
    Por essas e por outras, escrevo agora mesmo ao editor para lhe dizer não quero mais escrever crônicas. Sei, ele vai me falar a mesmíssima coisa: que eles pagam bem, - sério? - que eu preciso do dinheiro, que o jornal é famoso, que somos amigos há muito tempo, que tem a pelada na quarta, o chope na sexta, enfim, toda essa cantilena de sempre. Tudo bem, mas se ele quiser fico no lugar do rapaz que tira fotocópias, aprendo a fazer fotos, sirvo cafezinho, e até trabalho na limpeza, mas crônicas não dá mais não. Apenas um texto por semana e parece que trabalho os sete dias e sem nenhum descanso. Deviam me pagar também pelo tempo que passo pensando na crônica: o antes e o depois. Parte da semana, passo procurando sobre o que vou escrever, depois que consigo e logo envio o texto ao jornal, o alívio só dura até saber que já preciso pensar em algo para a próxima crônica, e então recomeça o martírio, o inferno, a via crucis: “sobre o que escrevo? sobre o que escrevo? Sobre o que escrevo?
    Chega. Tá decidido, velho, nada mais de crônicas. Ponto. Ora, nem consigo mais dormir, acho que já disse. E quando consigo, sonho que preciso encontrar alguma coisa para a próxima crônica. Quem sabe, logo ao acordar, eu tenha conseguido trazer algo lá do inconsciente e me ponha a escrever, né? Quem sabe, uma lágrima que a menina desconhecida na minha aventura onírica tenha derramado por mim, o rio que atravessei a nado, mesmo sem saber nadar, os meus voos impossíveis e freudianos de pássaro humano. Não, é sonhar demais. Nada. O telefone já me olha sisudo.
    O que importa se eles pagam bem? Se preciso do dinheiro? Ora, que coloquem no meu lugar algum escritor incipiente. Um daqueles que acha que escrever é uma maravilha. Sim, um daqueles que, na madrugada, escreve um parágrafo ruim, depois satisfeito acende um cigarro e vai olhar as estrelas. Abro mão. Sem mais. Prefiro voltar a tomar vinho Chalise e deixar de pitar um charutinho, vez em quando, a continuar escrevendo esses textos. É isso, a partir de hoje, por gentileza, amigo, conte com outro cronista. Quero voltar a não me preocupar mais com as crônicas semanais, assim como os anjos não se preocupam com o sexo. Livre, leve e solto. É isso. Posso até me dedicar a descobrir quem é a menina desconhecida que derramou uma lágrima por mim no meu último sonho. Isso seria um sonho.
    Bom, já tarde da noite, quando fui revisar este texto, que era o que eu intencionava enviar ao meu editor, percebi que tinha, então, a minha crônica. A minha recusa em escrever para o jornal, era, enfim, a minha crônica da semana. E ainda faltavam dois dias para entregá-la. Sempre isso. A mesmíssima coisa de sempre. Então, por que o medo, meu velho? Bom, a resposta nunca é simples e nunca é única, mas, se assim não o fosse, não haveria graça alguma, certo?
No dia seguinte, com aquela sensação de um presidiário que vai para o pátio tomar um solzinho, sentir o vento na cara, fumar um cigarrinho, enviei o bendito texto. Espero que o meu editor entenda que é a minha crônica e não o meu pedido de demissão. Ele é inteligente, vai. Ufa! Depois disso, saí pra comprar um vinho chileno e um charuto Pimentel, longo. O meu predileto.

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