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Grito.

Quando nasci, gritei. Foi o que minha mãe me disse. Foi um grito seco e curto como se quisesse já impressionar o mundo, mas não tivesse muito tempo para isso. Nascer é sempre uma urgência. Gritei porque senti de cara a afronta que é a realidade. Porque já sabia do que as pessoas são capazes. Sabia que gente havia enriquecido negociando gente. Toda a riqueza, de uma forma ou de outra tem um pouco dessa nódoa, não? Sabia que poucos lutariam com unhas e dentes para defender o muito que possuem. E ai daqueles que tentassem impedir isso. Ai daqueles. Não continuei a gritar, apesar de saber que há mais que motivos suficientes para gritar e gritar e ainda mais alto. Não grito porque sei dos poetas, da poesia, da música, da arte, sei dos santos, dos bons Sei daqueles poucos que lutaram muito para que alguns escapassem dos chicotes dos algozes abastados e ensandecidos pelo vil metal. Parei de gritar porque acredito no empenho dos malabaristas e que os malabares, apesar de toda a força contrária, por algum motivo, permanecerão no ar e indo e indo. Acredito nessa forma de ver e sentir. O sentimento tem um léxico diferente do da razão. E não segue a ordem alfabética. Não, isso é coisa da razão. A ordem do léxico do sentimento é aleatória.
    Ah, quando eu nasci, eu gritei. Foi o que minha mãe disse. E que bom que não chorei. Pois quando entramos, em desvantagem, diga-se de passagem, em algum solo desconhecido, é preciso ir logo mostrando a nossa coragem, as nossas melhores armas. Nunca vi o choro mudar nada. Não devemos mesmo entrar gritando na vida? Eu entrei. Dizem que alguns entram até bailando.

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