Não gosto de carros. Nunca gostei. Dirigi uma ou duas vezes, na adolescência, quando roubava o carro do meu pai, enquanto ele dormia. Dava umas voltas no quarteirão e pronto. Depois, todo orgulhoso, colocava novamente a chave no porta-chaves. Foi difícil, à época, porque gostar de carros era uma coisa sagrada entre os homens – quer dizer, ainda é, né? – Alguns amigos viviam embevecidos com as máquinas que nunca iriam comprar. Compravam sempre aquele carro que já tinha passado por muitas mãos e que eles tratavam como se fossem novinhos em folha.
No final de semana, o grande programa era ir ao lava-jato. Enquanto os homens mandavam ver no bichinho, podíamos tomar uma cerveja enquanto olhávamos o domingo ainda se espreguiçando.
Só falavam em comprar aqueles para-lamas, aqueles para-choques, sei lá. Ah, o tão sonhado farol de milha, o vidro fumê, as calotas diferenciadas, esportivas, o rebaixamento, os bancos, e um detalhe muito importante, o som do carro. Tum, tum, tum. Era como se as portas do veículo tivessem vida própria. Era como se uma canção entrasse pelas nossas costelas e ficasse vibrando lá dentro.
Mas veja, como disse, não gosto de carro, nunca gostei, portanto, citei tudo isso, porque, na verdade, estava tudo no meu banco de dados da memória emocional. Fui escrevendo e a coisa veio que veio como se eu tivesse começado uma canção da minha infância antiga e a letra tomasse conta da minha cabeça como pássaros ensandecidos saindo de uma gaiola. Até cheguei a ver, aqui na página em branco, a cara de um dos meus amigos que tinha um kit mais que especial de flanelinhas. Se ele descesse do carro, fosse onde fosse, logo tirava uma flanelinha e dava um trato nos faróis do seu carango. Caraca, lembrei até dessa palavra: carango. Legal!
Bom, até hoje não sei lidar com carros. Até comprei um, mas ficava todo o tempo na garagem. E como eu não sabia o que fazer com ele, e ele, muito menos, sabia o que fazer comigo, me aconselharam a vendê-lo. E foi o que fiz. Acho que comprei uma bicicleta, que se não me engano, tá lá, na garagem, com mais pó que o deserto de Mojave. Sim, e por isso, ando de táxi, ônibus, metrô, e muito recentemente, de uber. Gosto de pensar que não preciso ficar ligado em semáforos, guardas, placas, regras e mais regras. Já há regras demais fora das estradas, há em demasia na nossa vida, até quando estamos roncando em nossa bendita cama há algumas regras. Ou seja, se não respeitar a Física, roncando ou não, vai despencar da cama sem pena feito um fruto maduro. E tome-lhe Jones. Tô tentando entrar no tema central da crônica, mas sempre aparece outra ideia. Pareço Napoleão escondendo a mãozinha, escondendo o jogo, sei lá. Não gosto de guiar, não só porque não gosto de carros, mas também porque curto ser levado enquanto leio ou escrevo algo. Quando viajo, enquanto o motorista mantém o ônibus seguindo feito um cachorrinho passeando feliz pela rua, vou olhando a paisagem, lendo poesia e achando – ou me enganando – que o mundo é bom e justo.
Here we go. Estava então, em um uber, olhando o nada, até meio sonolento, quando ouvi um barulho e de repente, dos dois carros da frente, desceram dois homens ensandecidos e começaram a trocar socos. Olhei para os lados como a me certificar de que não havia algumas câmeras por ali, e que de repente, alguém, a qualquer momento, poderia gritar: “corta”. Acho que só tinha visto aqueles tipos de socos no cinema, talvez no filme Liga da Justiça. Mas nada, era real a coisa. Eles brigavam como se fossem dois conhecidos, vizinhos, sei lá. Como se guardassem uma mágoa antiga ali, naquele peito arfante. Mas não, eram completos estranhos um para o outro. Apenas tiveram o azar de trumbicar numa das rodovias tumultuadas e não planejadas de São Paulo. Mas dizem que numa certa cidade do Brasil é ainda pior. Lá, afirmam, que o motorista liga o foda-se e entra. Às vezes, num espaço que nem bem cabe um carro. Bom. Lá estavam os caras se matando. Brigavam pelo quê, exatamente? Tanta força, tanta fúria, tanto empenho. Para quê, exatamente? Paravam, olhavam os seus respectivos carros, viam os respectivos estragos e a pancadaria recomeçava. Mas ninguém pode se matar pelo resto da vida, certo? Isso não é humanamente – ou desumanamente – possível. Uma hora a coisa precisa parar. A polícia chegou e blá, e blá, e blá.
Presenciar uma briga dessas, ninguém merece. Pelo que sei, apenas o Hemingway e mais uns dois escritores gostavam também de trocar uns socos. Cada um cada um. Da minha parte, tento deixar todos os meus instintos mais primitivos na seara da poesia. Gosto mesmo do cafuné das musas.
Mas tudo isso foi bom. Se é que posso dizer assim. Como disse desde do início, e reforço, não gosto mesmo de carros, não sei lidar com eles, mas com o tempo, e com as sempre resilientes insistências da parte de alguns amigos, os mais chegados, eu tinha decidido, novamente, comprar um carro e ,de vez, encarar a bagaça. Eu estava no uber, indo exatamente assinar a compra de um carro que eu havia gostado e tatibitatemente, escolhido. Porém, diante daquele episódio gratuito de MMA, da UFC, essas coisas de soco e sangue, declinei de boa, na hora. Pedi, então, que o motorista cancelasse a minha rota, e refizesse uma outra; a de volta para minha casa. Eu pagaria as duas, evidentemente. Isso era fácil, sair do tumulto, nem tanto. O resto eu veria depois. Nunca gostei mesmo de carros.
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