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O tempo que passa do tempo

Com o tempo, penso que vou perdendo cada vez mais a minha desenvoltura com as horas comigo mesmo. Não me refiro ao estado de isolamento voluntário e positivo, aquilo a que chamamos de solitude. Esta é tão necessária, quanto, vez em quando, é preciso sair para bater papo com alguns amigos. Falo do tempo que transborda o estar só. Antigamente, quando ficava sozinho, embriagava-me com a minha companhia, com a ausência de mundo. Na verdade, criava o meu próprio mundo e o habitava como se eu fosse a própria humanidade. Adorava quando minha família ia viajar, e eu, já grandinho, ficava tomando conta da casa. Não era a ausência deles que me empolgava, mas sim, o estar comigo mesmo, o desafio de me olhar no espelho e ver-me a mim mesmo e somente. De ouvir os meus próprios barulhos. De dormir e acordar comigo. Quando eles voltavam, mostrava-lhes, então, com orgulho, a minha cara de sobrevivente da vida de um ser só.
    Mas penso que isso já faz muito tempo. Hoje, a coisa não é bem assim. Explico. Passei um bom tempo vivendo sozinho. Uma toalha, uma xícara, um copo, um prato, um talher, um par de chinelos. Esparramava-me na cama feito um Cristo crucificado, porém feliz. Quando ia sair, não precisava dizer a alguém para onde, nem quando eu ia voltar. Poderia até não voltar se quisesse. Poderia abandonar-me. E eu gostava disso. Alguns costumam dizer que é quando temos o timão da nossa vida.
    Por gostar muito desse ritmo, lembro-me do quanto foi difícil me adaptar a uma vida a dois. Duas toalhas, duas xícaras, dois copos, dois pratos, dois pares de chinelos. E agora, ocupando na cama o pequeno território que me cabe, e ainda com uma coxa sobre mim, às vezes, até duas, pois ela dorme que nem uma Madalena espaçosa. Quando acordo no meio da noite, e tento ler, ela vira de lado e me enlaça, enquanto balbucia palavras incompreensíveis, porém, carinhosas. Sei que são carinhosas, porque me acolhem tanto quanto o seu braço em minha cintura. Leio um pouco, então, abandono o livro. Depois, como duas peças feitas na medida certa uma para a outra, me aconchego nela, e não há mais medo no mundo. Estamos tão juntinhos, que antes de apagar, ainda penso na possibilidade de os nossos sonhos se misturarem.
    Mas como disse, foi muito difícil chegar a isso, pois não é juntando vários tijolos que construímos uma casa. Para isso, precisamos de muito mais. Na construção da harmonia a dois, somos o arquiteto, o engenheiro, o mestre de obras, o pedreiro e sei lá mais.
Disse tudo isso, porque, por esses tempos, ela precisou viajar. E foi quando descobri que não sei mais lidar com o tempo livre comigo mesmo. O tempo que passa do tempo. No primeiro momento, senti-me como um fumante inveterado que deixa de fumar, de repente, e acha que pode com os hábitos mais arraigados. Depois vai esmorecendo, sonha tragando, sente o cheiro do cigarro, enfim, depois de alguns dias já não tem mais tanta certeza de que quer mesmo parar de fumar.
Sim, quando ela viajou, eu estava mesmo com a sensação do marinheiro que fica sabendo que o capitão vai precisar permanecer algum tempo fora do navio. Mas isso durou muito pouco. No primeiro dia, tudo correu as mil maravilhas. Se é que posso dizer assim. Assobiando, fiz o café. Ainda assobiando, arrumei a minha estante, limpei os livros, li vários trechos. Tomei um banho demorado, fiz um salmão com alcaparras e abri um vinho. Tudo isso ainda assobiando. Depois saí pra dar uma volta: comprar um livro, tomar um café, andar. Alguns amigos chamam a isso de liberdade.
    No final da tarde, quando voltava, já pensei em lhe perguntar uma coisa, mas logo percebi que ela não me esperava em casa. Ora, ela estava viajando. À noite, rolei na cama. Não me encaixava em nada. Tentei ler, mas a cada linha, esperava que o braço dela enlaçasse a minha cintura.
No dia seguinte, sem assobiar, fiz o café. Tomei um banho rápido e me enxuguei demoradamente com a toalha dela, depois vesti o seu roupão, calcei os seus chinelos, e nesses trajes, almocei o meu cheesburger.
    Bom, pra resumir, porque isso pode ir longe demais, dias depois já não sabia mais o que fazer comigo. Até passei a colocar duas xícaras, dois pratos, dois talheres sobre a mesa. Sentia-me como uma criança que tenta brincar nos dois lados da gangorra para mostrar que lida bem com a solidão, mas nada como brincar a dois, não?
    Ela já retornou, e tudo parece ter voltado ao normal, assim, num clique. Ela riu quando me viu com o seu roupão e os seus chinelos, mas não entendeu porque usei o seu perfume. Como explicar? Bom, por esses dias, o barco sacolejou, mas permaneceu em sua rota. Agora segue num mar calmo e lindo. Isso é que é liberdade, viu? E adianto, é ela quem está no timão.

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