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Riso amarelo

Tenho dificuldade de desligar de mim mesmo. Não tenho também facilidade de falar banalidades. Dizem que por isso, talvez eu morra cedo. O fato é que já passo dos 50 e indo. Quando saio com alguns amigos - amigos mesmo - e nos sentamos à uma mesa de um boteco qualquer para algumas rodadas de chope, ao aboletar-me, logo espero aquela questão existencialista, daquelas que põem todo mundo a pensar. Mas eles só falam de bolas na trave, placares extraordinários. Logo depois estão falando de pernas, rebolados e tudo mais. Aventuras muito provavelmente saídas das Mil e Uma Noites. Bom, não gosto de bolas na trave. Ou entra ou vai pra fora. Ponto. Bola na trave é como aquele sentimento dúbio do qual não conseguimos nos livrar, pois não somos derrotados pela incompetência, mas sim, pela Física. Sobre as pernas, rebolados e acessórios, penso que as relações andam complicadas. Pensando nisso, olho o meu chope que me olha. Invejo os meus amigos. Poxa como eles são desenvoltos com as trivialidades. Nem parecem aqueles homens sisudos, com ares de preocupação e medo, zanzando pelos escritórios. Eles riem de tudo. Vez em quando, um solta uma risada e logo dá uma pancada em meu ombro. Com isso, sou jogado para frente e tirado à força da minha inércia Tutankamônica. Então, ajeitando-me no banco, rio amarelo, - é o que consigo - apenas para lhe dar a impressão de que estou acompanhando mesmo o seu joguinho. Todos gargalham, e eu vou atrás, como um animal manco que tenta acompanhar a manada para não tornar-se presa dos predadores.
Para eles, viver parece fácil, divertido. Tudo pode ser resolvido com algumas canecas de chope e boas risadas. É o que também parece. E penso que até pode. Não estou aqui para negar isso. Ora, sou amigo deles. E o que faz um amigo? O problema é que depois, a vida continua. E não podemos ficar sempre rindo dela. Ou podemos?

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