Às vezes, me pergunto o que deus quis ser antes de criar o mundo. Porque na maioria das vezes decidimos as coisas por mera contingência. Também, na maioria das vezes, acabamos nos arrependendo das nossas conquistas. Conquistas que parecem mais alheias que nossa. Antes de ser escritor, eu queria ser escafandrista. É. Estaria hoje, é certo, contra a vontade do avanço, em posição contrária à linha do tempo, caminhando com dificuldade, em meus passos de pato, dentro de uma roupa que nem se usa mais, ainda por cima, assustando os peixes.
O progresso tem esse poder antipoético de caminhar à frente dos nossos sonhos. E os sonhos mais ridículos – se é que estes existem – são os melhores. Meu pai me disse, que saiu de casa porque não queria passar a vida toda fazendo serviço pesado e ainda ter a orelha puxada toda a vez que ele pegava o caminho que dava para o seu mundo imaginário. Ele queria entender os passarinhos, queria catalogá-los, estudá-los, mas nunca prendê-los, não. Ele entendia dessa coisa de ficar preso, e isso ele não queria nem para os passarinhos. Quando meu pai já estava bem velhinho, naquele momento em que os sonhos ainda possuem asas, mas não mais a certeza da força dos seus voos, ele me perguntou: "filho, quanto tempo temos mesmo de estudar? Quanto tempo eu levaria para entender os passarinhos? Acho que meu pai estava me perguntando quanto tempo ele levaria para se tornar um biólogo. Eu não respondi, não porque não quis, mas porque precisei de uma força extra para lidar com aquilo e nisso a pergunta ficou no ar, suspensa entre nós dois, feito um bem-te-vi eterno. Até hoje ouço o ruflar das asas desse passarinho.
Ouvi tanta gente falar dos seus sonhos, rabiscá-los em agendas esquecidas, desenhá-los em papel de pão, na areia da praia, guardar nos bolsos furados. Um senhor me disse que queria conhecer Zanzibar, não pelos atrativos que a cidade devia possuir, mas pelo frenesi que o som da palavra lhe causava. Uma mulher que ansiava correr por um campo de girassóis. Ela sonhava com isso, vez em quando, e ao acordar, levava ainda um tempo pra saber onde estava, porque dizia, sentia ainda as pétalas dos girassóis roçando em seus ombros, face, cabelos. Havia um senhor que queria conhecer os vulcões, a Via-Láctea, os dias quentes e frios dos desertos. Outros queriam apenas voltar à terra, rever seus recantos mais caros, abraçar amigos já quase esquecidos. Um outro me disse que tinha vontade de sair por aí, sem roteiro, apenas ir, queria saber quantas estradas havia no mundo. E tinha muitos outros, muitos sonhos contados com a grande força contida pelos desencontros da vida. Por que há sempre algo, né? Há sempre alguma coisa bem no meio, entre nós e os sonhos. Gostaria agora, vestido com minha roupa de escafandrista, fazer uma roda com o senhor de Zanzibar. E que ele me contasse histórias de lá, e que a senhora me desse um girassol que colheu de suas corridas ensandecidas pelos campos de girassóis tão sonhados, e que o senhor me ensinasse sobre os vulcões, sobre a Via-Láctea, e que alguns trouxessem seus amigos mais caros e falassem dos seus recantos queridos. Também, nessa roda feliz de conversa, que o senhor me contasse quantas estradas há mesmo no mundo, entre outras coisas. Quanto custa mesmo uma roupa de escafandrista?
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