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Sou Rei

Quando, num dia de chuva, saboreio um pão francês quentinho transbordando manteiga aviação, acompanhado de uma média bem quente, sou rei. Sinto o meu trono como a medida exata da minha existência. Não brigo com o tempo - nem percebo que ele existe - nem relevo as diatribes do indiferente síndico do prédio. O não em forma de porta na cara que ela me deu ontem dorme no fundo do meu ser como um bebê alimentado.
O pão estala nos dentes, a manteiga escorrega para a língua, o café com leite entra na festa e então, me ajeito em meu trono. Deixo logo de ser ateu, até tento lembrar-me de alguns trechos de um padre-nosso bolorento. Esse momento merece algo assim, uma oração, mesmo que em fragmentos, pois sei que o que importa é o coração estar inteiro. Meu cardiologista, no meu último exame, disse que o meu está inteiraço. Foi o que ele disse. E é preciso mesmo levar em conta uma rara boa notícia vinda de um médico.
Fecho os olhos. Ah! o paladar é o sentido da vida. Sinto a minha túnica real pesando em meus ombros como a me lembrar de que sou rei. Ainda sou. Há um pouco do pão e da manteiga aviação derretendo-se onde o homem começa mesmo a morrer. Pois é ali que renasço. Nem me lembro dos pepinos com a reforma do apartamento, nem que em breve virão os entraves da burocracia do imposto de renda. Até a taquicardia sumiu. Virá, é certo, mas só depois do pão, depois da manteiga, depois do café com leite.
Mastigo e penso no destino do meu reino, penso na segurança do castelo, penso que tenho um exército inteiro para me defender e que no mundo não existem mais traidores. Pelo menos até durar este momento de deleite em que me encontro. Saboreio este momento. Ergo-me do meu trono e faço gestos. Acho que são gestos de um rei. Tento dizer algo que seja Real, que venha mesmo de um monarca, mas minha boca transborda de gostosura e por isso, as ordens saem desordenadas e com cheiro de café com leite. Qual súdito vai acreditar nelas? Já serei motivo de piada em meu próprio castelo?
A língua nos dentes já busca um tempo tão agora e já tão distante. Bons momentos duram pouco e quando se vão tudo parece acabado e distante. Já não sou mais rei, já não há mais trono. É apenas a velha cadeira doada pela minha velha tia. Outro pão? Não, isso já seria abusar do destino. Meu cardiologista disse: "só um e só. A saúde na velhice começa agora, meu caro!"
Agora sou apenas um homem olhando, pela janela, os transeuntes apressados com seus guarda-chuvas úmidos e estropiados. E a lembrança do não dela dói como uma moléstia.

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