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A carta

Esses dias encontrei uma carta da minha mãe. Era volumosa, enchia o envelope de saudade, transbordava. Letras e mais letras buscando tocar os afetos, frases e mais frases cheias de conselhos e rezas, folhas e mais folhas tentando suprimir a distância. Há muito que vivo longe da casa dos meus pais, mas a distância nunca foi mesmo um obstáculo. Eu sempre disse para os amigos que a distância é um problema das estradas. Elas que o resolvam.
O fato é que eu morava mesmo longe deles. Havia nisso, da parte dos meus pais, até um orgulho: eu tinha ido buscar a cota do que me pertence, honestamente, sim, sempre. E outra, eu morava na capital, na grande cidade veloz onde tudo acontece e logo desacontece para acontecer novamente... Oh, mãe, se soubesse a loucura que é isso, o quanto isso nos massacra. Mas como viver no sertão, né? Bom, deixa pra lá. A distância minha mãe resolvia com cartas. Ah, aquela letra de professora do magistério e que eu sempre tentei imitar e nunca consegui. Eram difíceis aqueles R, S, T no início das frases. Minha letra parece a de um médico com pressa e sem paciência alguma. Às vezes, escrevo algo num papel e depois, sem conseguir entender, digo: deus, quem escreveu isso?
Por que resolvo abrir gavetas? Não sei. Tenho um problema com gavetas porque nelas colocamos tudo aquilo que não pretendemos mexer tão cedo. Quer dizer, falo de mim. Não sei se todo mundo é assim, o que sei é que sou. Tento não comprar móveis com gavetas, se os encomendo, peço sem gavetas, mas na impossibilidade, jogo coisas dentro delas, fecho e depois lanço a chave ao mar. Mas a vida está sempre aprontando, não?, e por esses dias, tive de mexer em uma delas e foi aí que encontrei uma carta de minha mãe, já disse isso. Se algumas pessoas têm medo de ali, encontrar baratas, aranhas, escorpiões, eu, sinceramente, os prefiro à cartas. Tenho medo mesmo de cartas. Ao abri-las, com mãos trêmulas, rilhar de dentes, e coração palpitante, as primeiras linhas já nos arrebata. É como ser abduzido do presente e depois levado para um tempo lá atrás. Sinto cheiro de frutas, de doce de banana, de buriti, ouço os latidos dos vira-latas, os mugidos das vacas magras e tristes, o ronco do meu pai, o varrer da vassoura – oh, deus, lembrei-me que minha vó dizia “barrer” e não é que acho ainda mais lindo que “varrer”? – sinto logo vontade de usar os meus velhos calções curtos, sinto seixos em meus pés, gotas de chuva no meu rosto imberbe, longe dessa barba grisalha e tosca que trago hoje.
Na volumosa carta, minha mãe, depois de tentar dizer o tamanho de sua saudade, depois de falar do velho, das meninas, de todos, pedia-me que, por gentileza, comprasse alguns produtos e os enviasse para ela, pois precisava muito para uma receita que pretendia fazer por aqueles dias. Uma pequena lista, coisa de nada, e junto dessa listinha, vinham algumas notas. Obviamente, sempre passando do valor da pequena compra. Oh, mãe, o amor também pode corromper, sabia? Lendo a carta, e os olhos já me impedindo de seguir com a leitura, não lembrava se tinha feito essa compra para ela, nem se a tinha enviado. Com as folhas da carta nas mãos, ainda mais trêmulas, virei o rosto para o lado como se quisesse buscar ali, no canto do quarto, a certeza de que eu comprara realmente as coisinhas daquela doce lista. Comprei? Não comprei? Não lembrava. Muito tempo já há havia se passado. E havia sempre a pressa e os compromissos da cidade grande que nos massacra. Um dia, ouvi dizer que não temos tempo nenhum para os vivos, mas temos todo o tempo do mundo quando eles morrem. Nunca esqueci isso. Penso que devo ter comprado, pois sempre seguia à risca os pedidos de minha mãe. Pedidos que demoravam a ser feitos e que vinham de longe e cheios de saudade. Assim, como não os poderia ter feito? Mas o fato é que não lembrava. Talvez estivesse apenas tentando justificar a minha falta. Não sabia.
Eu tinha tantos compromissos naquele dia. Mas depois de guardar a carta num dos bolsos, decidi que eu cumpriria apenas um deles. Esqueci todos os outros. Fui, então, ao mercado central de são Paulo. Até lá, fui acariciando a carta no bolso. Comprei tudo e fiz um belo de um pacote. Passei nos Correios e logo o despachei. Não tirei os olhos daquele pacote até o funcionário desaparecer com ele pelos corredores da agência. Saí dali, parei no meio da rua, um vento bateu em meus cabelos, ri, depois acendi um palheiro, dei duas tragadas fortes, duas baforadas, em seguida, tomei meu velho rumo, agora, sem mais nada para fazer. Já tinha feito o que era realmente importante. Meus pais já não mais existiam, a casa também não, aquele endereço devia ser de outra família, não importa. O que importava mesmo agora, era que eu carregava a certeza de que tinha enviado as coisas que minha mãe havia me solicitado. O amor tem dessas coisas. Por isso é amor.

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