Pular para o conteúdo principal

A partida

E tudo se passava naquela casa onde se degolava, à sangue frio, porcos, bois, galinhas enquanto se preparava um feijão e se tomava uma aguardente de alambique, aquela casa onde meninas menores, na maioria das vezes as filhas dos trabalhadores miseráveis, agonizavam sob o peso gordo daqueles homens fedorentos, velhos, infelizes e embriagados. Tudo acontecia naquela casa onde mulheres, por horas, desfiavam orações, mas logo que se levantavam e desdobravam os joelhos reumáticos, proferiam palavras enviesadas sobre um vizinho, uma vizinha, ou mesmo uma mocinha que acabava de descobrir o corpo em flor. Aquela casa, comprada por aquele que não sabia fazer um Ó com uma quenga e que fazia seus negócios baseando-se apenas pela cor das cédulas e o peso das moedas. Aquele velho que mandou dar uma surra no moço da venda para que ele tivesse jeito de homem. Sim, naquela casa, o casal e suas crianças precisavam pegar as suas trouxas e tomar um rumo, qualquer um. Que escolhessem um destino qualquer no mapa dos infelizes para enfiar as suas vidinhas. Aquele velho, falando baixinho na orelha dela, assim, como faz quem prepara um golpe mortal, disse com palavras úmidas de fumo e aguardente: "Você não é mais minha filha. De hoje em diante, você não tem mais pai". E isso foi como se no início não fosse o verbo, como se, depois o verbo não se transformasse em carne, portanto, como se a filha não fosse matéria. E aquele velho, como o demônio de Milton na orelha de Eva, com suas palavras de pele macia proferindo o sangue purulento do vaticínio, ainda disse: “E não conte mais com nem um centavo meu”. E a filha, depois do amém ao avesso daquela oração às avessas, saiu zonza, como uma criança que é rodopiada por alguém e depois é deixada ali, no meio da sala. Era o mesmo, ela ali no meio daquela casa, rodando como quem procura um ponto de apoio para evitar a segunda queda.
A matriarca, aquela mulher idosa, arrastando, todos os dias, o peso da obediência, ela que sem falta, logo ao acordar acendia velas para aqueles santos do pau oco com suas chagas mentirosas, ela que servia a mesa feito uma gueixa triste e muda, e que alimentava os animais, e que, e que, e que... uma mulher que nos acostumamos a chamar de bondosa, - onde estavam os dicionários? - ficou com a boca fechada, nem uma só palavra a favor da tonta, da exilada do país daquilo que costumavam chamar de amor. Podíamos vê-la, rondando a tragédia feito um fantasma à volta do túmulo. E podíamos notar os movimentos de sua têmpora, enquanto ruminava palavras que nunca foram ditas. Ficaram lá dentro, feito um punhal amolado na pedra do silêncio.
O sol nunca toma partido da zanga de ninguém. Queiramos ou não, ele sempre dá as caras, nem que seja por um dos rasgões dos encardidos lençóis daquelas nuvens também suspeitas. Tudo era suspeita e crime. E o sol em sua trilha. Quando despontava no Leste, era um Sísifo assanhado, já no final da tarde, uma Medusa decapitada. E o que mais poderia fazer senão manter-se nesse ir-e-vir feito alguém a procura do que não lhe cabe? Seu raio dourado, feito a espada do anjo Gabriel, perfurou para-brisas e retinas. A luz veio como um afago numa cicatriz, assim, como o deslizar do dedo gorducho de um padre na testa de um moribundo. É a promessa que perderá a elasticidade com o início da noite. O beijo de Judas.
Muito chão depois. Com o pó fino da angústia grudando na roupa e os olhos inchados de incertezas, desceram do ônibus feito animais para a degola. Como se o veículo os vomitasse, como se não os quisesse ali. Havia o cheiro de óleo diesel e mar. Oh, havia o mar, imenso como a sede da vida.
Os cinco pequenos, feito bichinhos que acabaram de sair do ovo, ali, rondavam os pais. Na verdade, o movimento todo era uma mescla de medo e curiosidade. Medo e vontade do mundo. Os olhos grandes como se quisessem matar a fome pelas retinas, como se quisessem morder a paisagem com os enormes dentes dos cílios úmidos. A vontade, a vontade. A fome que nunca desaparece, apenas se retira um instante para a sua sesta costumeira e depois, voltar refeita.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

obrigado, António Lobo Antunes!

Comecei a ler António Lobo Antunes pelo Memória de Elefante. É o livro de estreia do autor português. Logo que foi lançado, em 1979, tornou-se um grande sucesso de vendas. É fato que parte da crítica não o recebeu bem, mas, segundo o próprio Lobo Antunes, crítica nenhuma foi tão dura quanto a do seu pai, João Alfredo Lobo Antunes, quando, ao ler o livro, disse para o filho: “isto não é literatura” O Memória de Elefante não é um livro difícil como os que Lobo Antunes escreveu tempos depois. Mas toda essa complexidade que hoje é atribuída ao autor – e que ele nega – já está, de alguma forma, em gestação nesse livro: o estilo denso, a narrativa não-linear, fragmentada, o fluxo de consciência, a simultaneidade do tempo, e a poesia - sim, Lobo Antunes era um poeta. Como não? O que ainda não há nesse livro é a sobreposição de vozes: a polifonia. Esta, ele só vai utilizar, e de forma cada vez mais extrema e complexa, nos livros posteriores, como O Fado Alexandrino, A Ordem Natural das Coisas,...

a velha casa II

O jardim onde, nas brincadeiras, eu me escondia detrás das plantas espinhentas. Nas minhas primeiras incursões etílicas da juventude, eu tinha de pular o muro para que o portão, com seu incurável canto em falsete, não me denunciasse e meu pai se levantasse em seu arrastado de sono e fúria. A rua silenciosa, o apito do vigia, o Caravelo, mais lento que o andador da minha vó, prestes a cair sobre nós, ali, sob cobertores cheirando a amaciante e ferro de passar. Depois de rezar, em vez de dizer amém, eu dizia: “não amanheça, não amanheça”. Os dois lados escuros da casa – as lâmpadas sempre queimavam - que iam dar no quintal. Lá, a goiabeira onde chorei e sonhei e vi, dias sem fim, a menina sair do banho. O tilintar de pratos e copos dos vizinhos e a sensação de que dentro da noite eu estava protegido do mundo. Sobre a geladeira, o sarcástico pinguim que sabia mais de nós do que nós mesmos. Ali, em cima da velha cônsul asmática, ria a rodo dos nossos desencontros. A minha irmã sonâmbul...

a alça fria do peso da sua ausência

Quando meu irmão faleceu, não fui ao enterro. Adianto que não estou a justificar nada – e isso se justifica? -, mas é que meu pai havia morrido alguns meses antes e não vi mesmo força nenhuma para outra empreitada do nível ou pior. O que dói na morte não é somente a perda. Sabemos que, mais cedo ou mais tarde, morremos. É um acordo tácito, ou seja, antes de nascermos, não nos é apresentado um contrato no qual está escrito: “você vai nascer, passar um tempo – sabemos lá quanto – depois você morre. Assine aqui embaixo”. No curso da nossa vida, acabamos aceitando a ideia – aceitamos? – como um enfermo, uma hora, aceita a sua moléstia. O que machuca mesmo, e é aqui que a chapa esquenta, é a forma como a indesejada das gentes, como Bandeira gostava de denominá-la, tira-nos pessoas queridas. Melhor dizer nos arranca, sim? Porque é isso que ela faz. Lembro-me do meu pai, homem de voz de martelo de Thor com a qual até a casa se assustava. Mas era doce que nem os picolés de castanha da minha ...