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A qualquer custo - o filme - resenha

Gosto quando o filme de cara me joga numa cena, não me deixa mais despregar os olhos da tela e quando a coisa chega ao ápice da sagacidade, quando acho que tudo vai explodir (no sentido psicológico da coisa) começa uma música que eu nunca ouvi mas que já gosto, e então, tudo se acalma. Depois aparece aquela estrada imensa por onde me dá uma vontade enorme de fugir da vida, apesar da velha certeza do meu peso de Cristo crucificado sobre o sofá da sala. É aquele velho choque entre o possível e o impossível que, por um momento, me balança e logo me faz perceber a vidinha que ando levando. O cinema tem dessas, por isso é arte.
Gosto dos filmes que prezam as músicas boas, uma atrás da outra, mesmo quando alguém leva um tiro, como em Pulp Fiction, sabe? Mas eu estou falando aqui, de A Qualquer Custo, com Jeff Bridges e Chris Pine. Bridges está impecável. E alguma vez ele não esteve? Ele está, ele está. A cena com Jeff cruzando a rodovia, na madrugada, com um cobertor sobre as costas é mágica. Um super-herói sem mais poderes? A humanidade arrastando-se? Um anjo caído? Ou apenas um policial que está prestes a se aposentar e sabe que não terá o menor traquejo para cuidar de um jardim nem assistir a programas sem futuro na tv. O que sabe fazer é o que vem fazendo há muitos anos, e isso precisa ser esticado. E lá vai ele. Que desolação. Que abandono. Que solidão. Que poesia.
Bom, o filme em si não traz nenhuma novidade no quesito tema. Há os velhos assaltos a bancos num sul já com celulares e computadores, e morto antes de nascer, devido à exploração das grandes empresas e seus advogados gananciosos. Tudo parece no meio do caminho, e triste, até as vaquinhas. A tristeza concreta de um Walmart imenso no meio do nada. O diferencial do filme é que os dois rapazes, bonitões, irmãos até o osso, não são exatamente assaltantes. Não roubam para beber, gastar, sair por aí com mulheres, coisa parecida. Roubam pequenas quantias para tentar saldar a velha dívida da fazenda e salvar o nome da família. Coisas da velha honra de guerra. Como diz um dos personagens: "Não existe nada mais texano do que pagar a velha dívida aos bancos com dinheiro dos próprios bancos.
Os personagens são mesmo marcantes, até aqueles que aparecem uma única vez. É o caso da garçonete de uns 70 anos que quando o cliente entra no café, ela logo pergunta-lhe: "o que não vai querer?". Isso para vender o mesmíssimo prato que vende há mais de quarenta anos. Coisas do Texas. Em uma das cenas de um dos assaltos, dentro de um banco, um dos assaltantes pergunta a um dos clientes se ele está armado, no que ele diz que pode apostar que sim. Amigo, perguntar se um texano tá armado é um pleonasmo. Coisas do Texas. E que fotografia! Há ainda isso, a belíssima fotografia. O exotismo da imensidão daquelas terras sem fim, de pão, família, honra, intrigas étnicas e sangue. Sabe aqueles filmes que você torce pelo vilão? Aquele gostinho de culpa e transgressão que fica na ponta da língua? É bom sentir essa mistura, é bom. Ah, o parceiro índio. A inopinada cena. Há um vínculo forte, há mesmo uma honra, há um sacrifício, há amor e fracasso. E há um plano, sim, e tudo se amarra. É como diz outro personagem, um dos irmãos, o Thobby: "Fui pobre a vida toda, assim, como meus pais. Isso é como uma doença sabe? vai passando de um pra outro, de um pra outro. Mas uma hora isso precisa acabar; meus filhos não, meus filhos não". É isso. Recomendo: "A Qualquer Custo: Filme com Chris Pine e Jeff Bridges. Disponível na Netflix. Filmão. Eu curti. Filme pra ver algumas vezes.

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