Amor a distância – vamos chamar assim, de amor – não é uma novidade para mim. Um dia, amei desse jeito, quando eu tinha 12, 13, 14 anos, sei lá. Foi naquela fase em que o mundo particular deixa de ser o mote e passamos a perceber um pouco as coisas que nos cercam; um pescoço delgado, uns lóbulos macios, e mechas lânguidas cheirando a xampu halo e derretendo-se sobre livros, cadernos, lápis, e borrachas cor de rosa com cheiro de chiclete tutti-frutti. Tudo isso era de K. que sentava duas carteiras a minha frente, na escola.
Passei muito tempo, sei lá quanto, feito um triste camelo ruminando dores de amores em meu deserto particular e sozinho. A dona do pescoço delgado, dos lóbulos macios e das mechas lânguidas trazia o meu dia quando chegava e o levava de volta quando ia embora. Como ela não conseguia notar os meus sinais? Alguém poderia não notar uma pessoa afogando-se? Hoje, posso até imaginar a minha cara triste como se eu carregasse todas as dores do mundo. Ela só ria. Como é bom não amar, não? Assim só há motivos para risos. É como ser senhor e servo de si mesmo. Manter-se no timão do mundo.
Veio então o baile de formatura. O ensino médio era como um barco que, silencioso ia afundando nos mares tortuosos das nossas rotinas tumultuadas. Fui ao baile com uma roupa nova que minha mãe comprara. Até hoje sinto as pinicadas das etiquetas. Ainda hoje me coço todo quando penso naquele baile. Mas ela, K. estava lá. E estava tão linda que esqueci as etiquetas e a coceira toda. Mas a festa revelou-se um martírio de solidão. Solidão nenhuma me doeu tanto quanto a daquela noite. Deus do céu. Até os carros lá fora, em seus anseios de motores, pareciam arrastar o manto turvo e longo da solidão. Passei todo o baile feito um triste vira-lata aos pés da indiferença de K. Esta ria com o vento.
Mas sobrevivi, e um dia, estávamos todos na calçada, meninos e meninas. Ríamos à toa, isso talvez como forma de esconder as nossas mazelas e inseguranças. De repente, nos vimos em meio a um jogo de confidências, de quem gostaria de ficar com quem. Teríamos de dar algumas pistas, e se a coisa complicasse, passaríamos, então, a primeira letra do primeiro nome. E K. logo disse que queria ficar com R. Ora, esta era a primeira letra do meu primeiro nome. Como só os idiotas se acham autossuficientes, como só estes são confiantes, enchi o meu peito, levantei o nariz e sorri como um vencedor. Um sorriso tão autossuficiente, tão confiante que nem me dei conta que existia outro menino, na escola, com a letra R. E era mesmo com ele que K. gostaria de ficar e dar lá, nele, os seus talcos, ruges ou mesmo batons. Vai saber.
Tempos depois, eu já adolescente, estava com uns amigos no bar e vi K. passando pelo portão da sua casa. Era outra casa, havia se mudado. Era ela sim. Tinha cortado o cabelo e agora usava óculos. Ia sozinha e parecia não carregar a leveza de antes – leve era ela ou era o meu amor? – passou por mim, e penso que me olhou. Não como quem olha e vê e reconhece, não, apenas como um ator ruim que esquece onde exatamente está a câmera e, sem querer olha para ela, e assim, mira o telespectador, sem necessariamente, vê-lo.
Dei um gole na minha cerveja e esse gesto pareceu o fim de uma história. Pude me sentir como um personagem que está em alguma estação de alguma cidade e espera o último tem.
Amar a distância talvez tenha sido a minha primeira experiência. E à época eu não podia deletar K. nem R. nem a mim nem ninguém. Não tinha como. Precisava lidar com a situação, frente a frente, gostando ou não. Era a vida. Precisava encarar a coisa e aprender com ela para continuar seguindo e seguindo o rabo do cometa dos meus anseios.
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