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Antes da grande explosão

Visitar a casa onde moramos quando ainda criança é como ter o coelho, mas não a cartola, como visitar um circo em fim de temporada, como atravessar uma ponte que estala a cada passo que, indecisamente, damos. Por quê? Não sei. O passado é essa sacola vazia, que de forma sôfrega, metemos as mãos lá dentro para vasculhar o vazio. A chuva é a mesma? Parece. Mas está longe de ser aquela que caiu quando eu ainda olhava pela janela e qualquer coisa podia acender o mundo. As árvores dos jardins cantando e dançando sob a sinfonia da água. Era assim que eu via. A escola me ensinaria que o clima esquenta, suga a água, e depois as nuvens a devolve. “O mundo não quer nada para si, tudo é emprestado e depois devolvido”, diria a minha primeira professora que naquele tempo já era uma velhinha. Tinha um sorriso materno e movimentos cheirando a alfazema. Foi quando eu deixei de olhar pela janela. E agora aqui, eu e a janela. Olho por ela e não vejo nada. Quer dizer, há um sobrado, e nele um homem descasca uma banana e a come como todo mundo come uma banana.
Mas isso foi depois, eu ainda estou a caminho de casa. Era assim quando voltava da escola. Agora, sinto uma coisa estranha, uma mescla de sentimentos. É como se eu fosse visitar minha primeira namorada, mas também, como se eu fosse ver um amigo que está morrendo. Meus pés vão numa pressa lenta. O corpo quer ir na frente, enquanto a alma divaga, quer sentar-se no meio-fio com a cabeça entre as mãos, mais ou menos como o meu pai fazia quando não tinha ainda o dinheiro do aluguel. Dobro a esquina e de repente já nem sei a minha idade. Me dá vontade de atirar pedras nas vidraças, somar os números das casas até a minha - era uma conta que nunca batia e que me dava vontade de voltar e somar tudo novamente - vontade de assobiar bem alto – mas isso eu nunca fiz porque nunca aprendi – vontade de tocar as campainhas e sair correndo e depois ouvir os resmungos da dona Leonora, mulher do Venceslau. Dona Leonora dos quadris imensos que os meninos costumavam brincar dizendo que lá vinha dona Leonora e os seus quadris. Essas vontades eram do menino ali. Mas ali também estava o homem cheio de vontades – quer dizer, não muito. Talvez, a mais forte mesmo fosse a de não estar ali. Então, ele apenas abotoou o botão da camisa, passou as mãos nos cabelos e pigarreou. Vontades assim, assim.
O portão é o mesmo, mas não tem o mesmo som. Quando eu voltava tarde das minhas primeiras incursões nos labirintos do mundo noturno, era preciso ter cuidado com o barulho do portão. Era como uma baleia morrendo. Se meu pai ouvisse o barulho, que na madrugada era ainda mais alto e assustador – era o barulho do nosso e tão nosso portão – ele aparecia na área e me xingava enquanto seus dedos mexiam febris já com sede nos lóbulos sofridos das minhas orelhas sofridas. “Oh, malando, isso são horas?”. Ele dizia. E como eu adoraria, pai, agora, ouvir isso. O que eu não daria. Pai, não tenho nada, mas te daria todo o meu nada por essa frase que um dia tanto me assustou. E ali, no portão, no agora que nem sei mais se é agora, eu abri e fechei o portão diversas vezes, mas nada de barulho, nada.
Entrei na área e olhei para um canto vazio. Ali ficava a cadeira do velho, quando ele descansava um pouco a alma e podia ver como era o cair do dia. Ali ele descascava laranja com uma faca, começando de um ponto até o final, sem parar, e então tinha uma tira só da casca. Nunca consegui isso. Sempre se rompia antes que eu terminasse de descascar a laranja. Ele ria, enquanto tirava os caroços de laranja da boca e os colocava num pratinho como quem semeia. Passei pelo corredor. Bem ali ficava o oratório da minha mãe. Em cima dele ficava a santa com o olhar que eu sempre procurei evitar. Sempre tive medo de olhar de santa. Ela olhava como se já nos punisse pelos pecados que ainda íamos cometer. Mas tem mais. São coisas que não sei explicar. Meu irmão armava a sua rede aqui. Toda noite podia ouvir seus balanços com cheiro de cigarro. Vejo-o ainda zanzando pela casa. Parecia procurar por si mesmo. Meu irmão, até hoje também procuro por mim. Quem sabe eu esteja aqui, nessa casa, quem sabe ainda estejamos, todos, aqui. Nunca saímos, sim?
A cozinha, a cozinha. Aqui, lembro-me do arrastar de chinelos da minha mãe. O cheiro de comida, o bater da colher de pau, o velho fogão. “Mãe, vou te dar um novo. Vamos amanhã e compramos”. E ela: “Não, guarde seu dinheiro. Você pode precisar. Esse aqui ainda aguenta”. O armário com as coisinhas dela. Umas xícaras que minha vó tinha deixado pra ela. Não serviam mais pra nada, porém, se desfazer daquilo era como se minha vó morresse de novo. O quintal. Não há roupas no varal, todas elas feito fantasmas de braços abertos e sacolejando ao vento da tarde, também parecendo homens pela metade pendurados no fio. As calças pra lá e pra cá, oscilando feito a vida. Não, não há mais roupas ali no varal. Nem mais há varal.
Que silêncio! Que silêncio! Nenhum cachorro latindo, nenhum galo cantando, nenhum gato miando, nenhum vizinho sussurrando segredos de quintais. Ninguém gritando: "Ô, menino, rái ali pra mim, rái! Estou com o coelho na mão, mas não há cartola. Todo mágico que se preza não repete a mágica. E nós sabemos por quê. Como a vida, ele tem receio que descubramos o truque. Pareço preso a casa, ou ela a mim. Sei não. Pareço tantas coisas. Sou que nem meu irmão; procuro por mim, por todos. Procuro, procuro. Talvez eu esteja já dentro de um truque. Talvez eu seja o próprio truque, um mágico sem cartola, talvez nem esteja aqui, talvez nunca tenha partido, quem sabe até o tempo nunca passou. É tudo tão longe, mas é ainda mais perto. Como se tudo estivesse guardado bem aqui dentro do peito. Forte, forte. Feito o universo antes da grande explosão.

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