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Atenção!

Muitas vezes não sabemos bem o que pensamos, e ainda pior; o que sentimos. Uma coisa tá ligada à outra, claro. Sentimos o pensar e pensamos o sentir. Somos sinestésicos, assim como a bananeira é uma pacoveira. E tudo isso - raciocínios e sensações - acontece mais rápido que um piscar de olhos. Apenas pensamos e sentimos, a toda hora e a todo momento, e como já disse, muitas vezes nem percebemos por que tal coisa nos causa tal sensação. Enfim, não gosto das vozes metálicas dos anúncios nos Metrôs. Não importa onde. Pode ser de São Paulo, Madrid, Paris, ou até mesmo nos jardins Suspensos da Babilônia. O perfil é sempre o mesmo. Por algum motivo, não me sinto bem. Raramente é uma "solicitação", e quando é, a palavra “solicitação” mesmo contextualizada, soa-me como um “atenção” ou “cuidado”, ou algo parecido. Estaríamos pisando num campo minado?
“Srs. Usuários, não ultrapassem a faixa amarela”.
Srs, usuários? Não há mesmo uma expressão mais camarada? E o verbo sempre no imperativo? Eles não aprenderam a conjugar os outros tempos do mesmo verbo? Há um tempo mais antipático e autoritário do que o imperativo? É só perguntar às crianças. Perguntem-lhes o que elas sentem diante de um: Coma, durma, cala a boca, beba, e por ai vai...
“Sr. Francisco, por favor, comparecer a SS, Ó!
Por Deus! Será que ele vai ser fuzilado? Ou até mesmo demitido? (Porque hoje em dia é melhor ser fuzilado que demitido). Bom. Mais uma:
“Srs, usuários não fiquem na região das portas”.
Claro que a maioria das pessoas gostaria mesmo era de estar na região nordeste, na praia, tomando uma gelada... porém não é o caso aqui, né? Estamos mesmo é ali, apertadinhos, espremidos, tentando ficar o mais próximo da porta, para conseguirmos descer na estação do nosso destino. Porque os educados; aqueles que vão lá para o centro do trem, descem sempre duas ou três estações depois, isso quando conseguem descer. E nós, espermatozoides preguiçosos, mal-educados, apenas ficamos, ali, esperando o impulso da multidão desenfreada, para conseguirmos enfim, desembarcar.
“Solicitamos a todos que evacuem a estação”.
Nossa mãe, "todos"? Todos quem? Nós? TODOS. Então por que eles também não evacuam a estação? E "evacuem"? Palavrinha polissêmica, neutralizada pelo contexto, é certo, mas será que todos entendem o que significa polissemia, contexto, neutralizada? Acho que não. Então, enquanto um senhorzinho já ia desafivelando o cinto, eu já fui dizendo-lhe: “sinto, mas o senhor não entendeu. Num é “na” estação, é “a” estação. E tem um banheiro logo ali, ó!” Mas voltando a voz metálica, evacuar a estação por quê? Fica a pergunta e o nosso olhar de gato que foi expulso pelo rato.
Bom, há tantas outras que ouvimos todos os dias. Fica-nos a impressão de que é preciso permanecer em posição de sentido ou até mesmo bater continência, sim, quando ouvimos estas vozes de lata arranhando nossas orelhas e o nosso dia.
Há, tem um jeito sim, sempre tem. O cara lá em cima ou lá embaixo, sei lá, vai saber, poderia dizer:
“Ei amigo, sim, você aí, é, você não está me vendo mas eu estou te vendo, coisas do ofício, mas amigo, poderia, por obséquio, dar dois ou três passinhos para trás da faixa amarela? Sim, é que se eu não te pedir isso, o meu chefe, sabe? Então, não posso falar alto, por isso tô sussurrando, tá me ouvindo? Valeu, camarada, obrigado”. Ou:
“Queridíssimos amigos, aí, que estão nas portas, sei que é difícil, acreditem, quando eu não estou aqui, nesta saleta gelada, estou ai também, e faço exatamente o mesmo que vocês estão fazendo, senão depois fica difícil descer, né? Gente demais, trem de menos, correria... mas amigos, amigos queridos do meu coração, poderiam afastar só mais um pouquinho para o canto. É que algumas pessoas vão descer na próxima estação, pode ser? Valeu camarada. Obrigado mesmo”.
Ah, e ele, ou ela, não importa, lá da saleta gelada, podia, uma hora ou outra, nos intervalos dos anúncios, quem sabe, assobiar ou cantar uma bela canção, tamborilar um sambinha do Adoniran... , né? Ah, podia também me pagar uma gelada, uma hora dessas, quem sabe enviar-me, no meu aniversário, um cartão, ou até mesmo um presente. Então, bem que podia, né? Ah, podia sim.

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