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Divagações sobre a morte

A morte acontece há milênios e ainda nos espanta. Existe desde o primeiro ser e muito provavelmente, continuará existindo depois do último. O que há de novo na morte? Nada. No entanto, nunca estamos prontos para ela. Como estar pronto para esse fim? Afinal de contas, até chegar a nossa vez isso só acontece com os outros. É certo que uma hora ela vem. Só os bebês ainda não sabem disso – e olhe lá – Mas, quando exatamente, ela virá, isso não sabemos, e penso que é melhor assim. Mais ou menos como uma chuva que nos pega no meio do caminho. E sem guarda-chuva, capa, nada. A morte não é como o clima. Não podemos prevê-la. “Pela previsão, hoje, há grandes chances de você morrer, portanto...” Não, não é possível. Até porque chances de morrermos há a toda hora, a todo momento, faça sol ou faça chuva: um coração cansado, uma comida estragada, um remédio indevido, um prédio que desaba, um gás vazando, um desafeto, um amor doentio, uma dívida pendente, um vaso que cai da sacada, um erro médico, um escorregão, doenças e mais doenças, ou até mesmo um elevador que devia estar em um lugar e, sabemos lá por que, está em outro. E numa dessas, vamos que vamos sem paradas e sem licenças.
Bom, por falar em elevador e por saber que muita gente partiu dessa para outra – não necessariamente no elevador, mas por causa do elevador, ou melhor, da ausência dele – lembrei-me de uma frase que durante muito tempo andou me assustando e irritando os gramáticos. Se ela era escrita assim ou assado, do jeito certo ou errado, não importa. O fato é que sempre me assustou. Imagine a hipotética e assustadora situação: você chega num corredor escuro de um prédio antigo qualquer e, enquanto assobia para espantar o medo, percebe a maldita frase: "antes de entrar no elevador verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar". Ao ler a frase, e já em alerta, perguntava-me: quem é o “mesmo”? E por que o "mesmo" estaria parado exatamente no andar no qual me encontro? Todo esse engodo, porque segundo a gramática, não podemos usar o pronome demonstrativo “mesmo” como pessoal. Sim, não podemos porque, na frase, não se está retomando um termo de natureza substantiva. Nesse caso, devemos usar o pronome “ele”. Até aí, beleza, sigamos, vamos rever a frase: “Antes de entrar no elevador verifique se ele encontra-se parado neste andar”. Sei, "ele" retoma o termo "elevador", ok! Quanto a gramática, tudo certo, mas confesso que o medo é o mesmo - com acento ou sem acento - Por quê? Veja “... verifique se “ele” está parado neste andar”. Logo penso: “Ele quem?”, “E por que “ele” deveria estar parado no mesmo andar que o meu?”. Lembre-se, estou sozinho num corredor mal iluminado. E se "ele” for o maluco do filme o iluminado, do Stephen King?
Por que não escrevem apenas assim? “antes de entrar, verifique se está tudo certo com o elevador”. Não está melhor? Ora, mas alguém poderia ainda perguntar: “entrar onde, exatamente? Pense comigo: se você está apressado, quer descer alguns andares, encontra-se diante de um elevador, apertou o botão para acioná-lo até você, onde, meu deus, eu deveria entrar? Se tivesse de mexer na frase, apenas acrescentaria: “e veja se não há mesmo alguém aí parado no corredor e prestes a correr atrás de você". Só isso, e ponto final - ”.
Bom, veja para onde a morte nos leva. Veja como ela nos tira a lógica, o fôlego, o bom senso, e até nos destrambelha a caneta. Fui mesmo para onde o gato perdeu as bolas. Mas o fato é que a morte nos enche mesmo de incertezas e acaba nos levando para corredores escuros e para dúvidas de Português.
Minha intenção mesmo era falar sobre as tantas mortes nas quais, doidamente, ando me deparando por esses tempos. Minha intenção era filosofar um pouco sobre isso. Perguntar-me se se morre mais hoje em dia ou se isso seria porque estamos mais conectados com tudo. Questionar-me se estamos, realmente, prontos para receber tantas notificações sobre mortes e mais mortes. Penso que do jeito que a coisa tá, daqui a pouco vai aparecer um aplicativo dizendo: “se você quiser saber quem morreu, em tempo real e integral – até mesmo antes da família do infeliz – ative aí o sininho”. Se é que já não tem. O que sei é que vejo muita gente morrendo todos os dias. E sei também que não estou preparado pra isso. E por que deveria? Nem bem nos recuperamos de uma perda e logo estamos sofrendo por outra. Nos agendamos para uma missa de sétimo dia, e no terceiro dia, já somos convidados a outra. Às vezes, até vou a um cemitério quando, na verdade, deveria ir a outro. Confundo os endereços, as datas, os mortos, os nomes. Sei que a morte é a mesma há milênios: um determinado dia chega e aí não tem isso, nem aquilo, nem barganha, adulação, conversa, propina, nada. Chegou, chegou e nem precisa de você fazer as malas. Vai do jeito que está. A morte é imparcial. E se mesmo sabendo disso, permanecemos arrogantes, pedantes, imagine se fosse diferente, se ela aceitasse gentilezas? Seríamos o quê? Bom. Como disse, a morte age dessa forma em qualquer parte do mundo, mas o jeito como as pessoas lidam com ela, dependendo do lugar, cultura etc., muda completamente. Por aqui, quando alguém morre, independente da idade, é um deus nos acuda. Sentimo-nos como se uma parte de nós também morresse. É uma história que termina, um vínculo que se quebra, uma dor que vamos ter de trabalhar toda uma existência, uma tristeza. Já no México fazem uma grande festa para que a travessia seja feliz. De tristeza basta a vida, né? Na Índia, terra de Gautama, se não deu nessa, pode ser que dê na próxima, apenas fique atento ao seu presente, pois você é resultado das suas ações. O seu carma não passa de uma mala velha cheia de roupa suja aguardando você numa estaçãozinha qualquer da sua nova existência. No Egito, os caras se cercam do bom e do melhor que é pra quando a foice chegar, tudo já deve estar prontinho para o novo despertar no além - seja lá onde isso for -, para que possa seguir novamente com a sua vida faraônica - ao lado de um Cleópatra com mais sex appeal que a Scarlett Johansson - e já pensando em fazer uma pirâmide dez vezes maior que a de Quéops.
Ok, culturas à parte, prefiro a história de Sócrates – na verdade, de Platão, que era um tipo de porta-voz de Sócrates – Dizem que o mestre, em seus últimos dias de vida, e porque não dizer, nos primeiros da morte, sentiu uma vontade danada de aprender a tocar flauta. Dizem ainda que alguém, meio pasmo, perguntou a ele,: "Mas mestre, para que isso agora? Você vai morrer". No que Sócrates apenas respondeu: “apenas para aprender. Sempre é tempo”. Sobre isso, penso o seguinte: já que na vida entramos gritando, berrando, chorando, esperneando, por que não podemos entrar na morte tocando uma flauta doce, um fagote, um oboé, ou até mesmo um trombone que é pra já ir acordando todo mundo do marasmo do Paraíso. Que seja!
Sim, a morte é tão antiga, acontece há milênios, e mesmo assim, ainda nos espanta. Todos os dias abrimos os jornais e lá está mais um que se foi. Mais uma que deixa um espaço enorme numa pequena foto. E elas, eles, aqueles que amamos tanto, e pra sempre, vão continuar partindo, até que um dia você estará sozinho numa foto. Até quando? Não sei, nem quero saber e tenho raiva de quem sabe...
Bom, pra finalizar. O que gostaria mesmo é que não anunciassem somente aqueles que nos deixam, aquelas que que partem. Gostaria que passassem também a anunciar os que acabaram de nascer. Segundo a revista Superinteressante, a pandemia levou a um aumento de 31% na média de mortes do Brasil em 2020, mas ainda não foi suficiente para superar o número de nascimentos. Sim, há mais vida que morte. A porta de entrada é mais movimentada. Então, que tal os jornais, a internet, o rádio, a televisão, os alto-falantes passarem a anunciar esses nascimentos. Sim, que na primeira página de um grande jornal venha assim: “acaba de nascer mais um bebê, filho de fulano e sicrana. A festa de nascimento vai ser realizada no endereço tal. Todos estão convidados. Não esqueçam de levar o sorriso, a alegria. Quem quiser, pode também levar a flauta doce, o oboé, o pífano, o trombone, e se estiver muito animado, bem disposto, pode até levar o piano, pois a festa vai até o dia raiar. E amanhã nasce outro, e depois mais um, e logo outro e mais outro.... A coisa não para. Pensando nisso tudo, olho o meu gatinho, companheiro de solidão e rotina, e por alguns minutos gostaria de ser ele, ali, de papo pro ar e sem a menor consciência desse lero-lero de morte.

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