Estou cá com os meus botões refletindo sobre a beleza da Natureza. Sempre que abro um livro de ciências fico nesse divagar sem fim. Costumo dizer que se alguém quiser me converter que me dê um livro de ciências, não uma Bíblia. Digo isso, pois só na Natureza encontro fortes argumentos da existência mesmo de um propósito nessa coisa chamada vida, não só a humana, mas toda e qualquer vida. Do desengonçado bípede em seus tropeços à centopeia em sua desenvoltura de miss cheia de pernas. Por falar em bípede, lembrei-me de um amigo gaiato que era viciado em jogos. Onde estivesse, propunha logo algum tipo de passatempo. Bom, ele costumava dizer que o homem passou a andar sobre as duas pernas porque sentiu a necessidade de jogar baralho, palitinho, dama, xadrez, entre outros jogos. Eu tentava argumentar, afirmava que não, que isso aconteceu porque...mas, ele logo me interrompia e veementemente, dizia: “nada disso, camarada. O tédio é mais perigoso que o tigre-dente-de-sabre, e o jogo é a única ferramenta capaz de derrotá-lo”. Era a tese dele e não adiantava insistir, pois quando a discussão ficava mesmo braba, ele logo arrancava um baralho do bolso e propunha um carteado.
Mas deixemos o meu amigo de lado. Falava sobre a beleza da Natureza, essa coisa que alguns religiosos chamam de a mais rústica roupa de Deus. Já que falei em Deus, dizem que muitos cientistas são ateus. O que não é verdade, haja vista Newton (o genial mau-caráter) Einstein, (o arrepiado cientista pop-star) Lemaître (o padre do Big Bang), e muitos outros. Até o Hawking, conhecido como um ateu convicto, a ponto de afirmar que não há possibilidade de um Deus em nosso Universo, em seus últimos dias, andou guiando a sua cadeira de rodas high-tech para as escadas polêmicas e sagradas de um dos tantos templos religiosos. O que quero mesmo dizer é que quanto mais leio sobre o Universo, as plantas, os animais, os oceanos, os seres humanos, o nosso corpo, os planetas, os buracos negros, ah, a matéria escura, entre outras tantas coisas, mais me sinto ligado a algo. Não exatamente a um Deus, muito menos o tão apregoado há milênios. Sinto alguma coisa próxima do que Oswald de Andrade chamou de “o sentimento órfico”. Disse ainda que esse sentimento – um tipo de necessidade epifânica - é nato no ser humano, portanto, independe, de qualquer rito, doutrina, líder e até do próprio Deus. Clarice Lispector também falava algo assim. Chamava a isso de “uma ideia de Deus”. Não o que julga, pune, controla, mas aquele que tanto cuida dos passarinhos quanto dos seres humanos, sem diferença nenhuma. O fato é que me sinto mesmo religado a algo – ou sei lá o que - toda vez que abro um livro de ciências. Principalmente, quando me deparo com o que Einstein chamou de “a perfeição e a beleza das leis do universo”. E foi na perfeição e na beleza dessas leis que o cientista disse ter encontrado Deus. Se for por essa via, eu também O encontro. Mas não necessariamente, passo a rezar, apenas olho mais para o céu, olho para as constelações e suas histórias e comovo-me com Vênus sozinho e distante, brilhando em sua fúria e beleza.
Sobre o nosso planeta. Ele está localizado num ponto do Universo que os astrofísicos costumam chamar de “zona habitável”. Isso quer dizer que ele não está nem um pouquinho mais próximo do Sol - a ponto de fazer toda nossa água evaporar - nem um pouquinho mais distante – a ponto de congelá-la – dessa forma, dando condições à vida. Por causa dessa posição precisa do planeta, estou aqui, escrevendo esse texto. Então, me pergunto: por que exatamente, essa posição?
Dizem que um espirro pode chegar a uma velocidade de 160km/h, e que por essa força, se não, fechássemos os olhos, estes saltariam das órbitas e cairiam em algum lugar bem distante de nós. Mas porque espirramos? Para expelir ácaros, pólens, bactérias etc. É um tipo de defesa do organismo. E pensar que o espirro já foi considerado elegante, e para provocar essa violenta elegância, usava-se o rapé. Bom, dizem que cerca de 37 trilhões de células estão espalhadas por todo o nosso corpo, cada uma na função que lhe cabe - os cientistas ainda estão numa jornada revolucionária para entender o que todas fazem de fato - Umas lá no Oiapoque, outras lá no Chuí, - ou no Monte Caburaí, como queira - e mais alguns trilhões por outras bandas, mas com certeza, todas elas muito ocupadas. Não param. O fato interessante é que se uma pessoa leva um tiro, por exemplo – espero que não seja o querido leitor/leitora aqui – o cérebro toca a sirene e todas as células-bombeiros, param o que estão fazendo no momento, não importa o que seja, e correm para apagar o incêndio, quer dizer, para tratar do ferimento e assim, assegurar a vida do infeliz alvejado. Então me pergunto, por quê? Seria alguma diretriz inerente a tudo e a todos? Um tipo de ordem emergencial e universal, algo próximo da famosa frase “Sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra”, porém, mais profundo? Não sei. Estou cá a pensar com os meus velhos botões de guerra.
Numa série muito bacana na NetFlix entendi por que numa situação de perigo, ameaça, medo sentimos logo um friozinho na barriga. É porque a maior parte do sangue do corpo, inclusive a do aparelho digestivo, corre para as pernas para que você tenha a força e a velocidade de um deus Hermes e assim, possa botar pra valer sebo nas canelas e sair ileso da situação de perigo. Foi em uma dessas séries também que vi e ouvi um cientista dizer que o orgasmo tem o tempo certinho de ser. Se ele demorasse um minuto que fosse, o corpo entraria em colapso e literalmente, morreríamos de prazer. Para finalizar as minhas elucubrações de enciclopédia, o genial Darwin, num determinado dia encafifou com uma tulipa com uma profundidade bem peculiar, uma tulipa rara. Então, ele pensou: se existe uma coisa assim, com essa profundidade, deve existir um pássaro com um bico longo e fino que possa tocar o fundo dessa tulipa para sugar o néctar ali, para espalhar o pólen. Darwin morreu sem saber que estava certo. Tempos depois, cientistas tomaram conhecimento da existência desse pássaro bem-dotado. Refiro-me ao bico dele, ok?
Bom, vou parar por aqui porque a bagagem polimorfa tende a estragar o estilo, segundo Braga. Ah, estou ainda cá com meus botões fora das casas e prestes a me ajoelhar. Não, não é para rezar, é que preciso me agachar para guardar a minha enciclopédia que fica na parte de baixo da minha estante. Mas, confesso que quando abro um livro de ciências e leio sobre a perfeição e a beleza das leis do Universo, sinto esse sentimento órfico, essa ideia de Deus, essa vontade de religação, tudo à flor da pele. Sinto-me grato, povoado, tocando algo maior e além de mim. Coisa que os livros que se propõem a isso - de autoajuda, então - não conseguem. Não comigo, violão.
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