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Eu vi?

Quando eu era pequeno, queria muito ver um disco voador. Talvez fosse mais tristeza que curiosidade. Uma vontade de que aparecesse algo extraordinário para mudar a minha vida tacanha. Como um menino pode achar divertido, todos os dias, à mesma hora, sair para comprar pão e leite, e de quebra, ter a orelha puxada por que esquecera o troco? Então, podia ser um disco voador, Pluft, o fantasminha ou mesmo gnomos escalando os meus ombros franzinos.
Eu vi Contatos Imediatos do Terceiro Grau 10 vezes, O Segredo do Abismo, 20, Contato, com a Jodie Foster, 30 vezes. Apesar de que em relação ao último, mais da metade foi só para ver e rever os olhos lânguidos da bela Foster buscando as estrelas numa ânsia de fugas – de preferência comigo -. me dava um troço. Afora isso, acho que vi esses filmes – têm outros – mais pela monotonia da minha fase adulta do que pelo fascínio de mundos distantes e impossíveis. A solidão cria a solidão para depois criar coisas para povoá-la e ser ainda mais solidão. Haja vista os Super-heróis, os deuses, e até mesmo os meus tão sonhados discos voadores. Desejos ancestrais feito sombras nas paredes do século 21.
Acho que aqui vem algo interessante. Eu tinha acabado de voltar da Europa. Dois anos por lá procurando algo que até hoje não sei o que era. Tinha começado, por lá, a fumar os cigarrinhos de armar: seda, filtro, fumo. Orgulhava-me de montar o meu em trinta segundos. Aprendi com uma atriz de Barcelona, em Avignon, sul da França. De volta ao Brasil, não consegui largar o vício bom. Rubem Braga, meu mestre, disse uma vez que os cigarros não nos dão prazer, apenas nos fazem falta. Acho essa frase bala, mas confesso que quando ia para a varandinha do meu apartamento, no centro de São Paulo, e armava um cigarro, depois dava preguiçosas tragadas olhando preguiçoso para a catedral da Sé, não dava mesmo para medir o prazer. Mas muitos dos que gostam desse tipo de cigarro, confessam que o prazer mesmo está em montá-lo. O resto é protocolo. Bom, eu estava ali fumando e de repente surgiu uma bola no céu. No primeiro momento nem dei bola – quer dizer, não liguei muito – parecia a lua. Mas que diacho a lua estava fazendo ali, quando, na verdade, deveria estar... aliás, ela estava em outro lugar. Espantado, olhei aquilo e aquilo me olhou. Sim, eu senti isso. Até aí, tudo bem. Só que a bola deu duas respiradas – não tenho analogia melhor – depois cresceu e cresceu e cresceu que eu achei mesmo que fosse explodir ou viesse de vez para cima de mim. Nesse momento, me agachei. Imaginem que situação ridícula não deve ter parecido para alguém que me olhasse de longe. Dali onde eu estava, ainda agachado, dei uma olhadela medrosa, e a coisa começou a diminuir, diminuir, diminuir até desaparecer de vez. Desapareceu em si mesma.
Não peço que acreditem nisso que contei, nem eu acredito. Sei lá, troço fabuloso demais pra ser verdade e real demais pra ser mentira, entende? Talvez fossem os meus antigos e arraigados anseios infantis pelo extraordinário. Vontade de que algo, enfim, leve me levasse, assim como Roy, o eletricista, que foi abduzido em Contatos Imediatos do Terceiro Grau – sempre tive inveja dele, e me perguntava sempre: “por que ele e não eu?” - Não sei o que foi aquilo que surgiu na minha varanda. Pode ter sido um balão meteorológico, ou mesmo, pra ficar menos sacal, quem sabe, uma gigantesca bola de chiclete Adams de algum anjinho, perdido, longe da sua esfera celeste.
Hoje, confesso que já estou cansado dessa história de ufos, abduções, relatos, aparições, teorias, conspirações e tudo mais. Afinal de contas, mentira tem perna curta e os americanos são vaidosos demais para ficar tanto tempo de bico fechado. Além do mais, bebem muito, e bebum, dia menos dia, solta a língua. Também cansei de esperar por eles, os extraterrestres. Se viessem agora, já estariam muito atrasados para a festa. E outra, chega dessa mania de importância. Não somos tão importantes assim. Se existem mesmo discos voadores, estou de acordo com Mário Quintana que, em um dos seus poemas, disse que os alienígenas estão só e apenas interessados no intrigante comportamento das formigas. E ponto. Em relação a nós, não existe mais nenhum interesse, se é que algum dia existiu.

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