Meu pai me disse vá, minha mãe me disse cuidado, meu pai me disse faça, minha mãe me disse pense, meu pai me disse crie a hora, minha mãe me disse espere o tempo, meu pai me disse é com você, minha mãe me disse conte comigo, meu pai me disse força, minha mãe me disse leveza, meu pai me disse siga, minha mãe me disse pare um pouco, meu pai me disse conquiste, minha mãe me disse cuide, meu pai me disse domine, minha mãe me disse domine-se, meu pai me disse escolha seus amigos, minha mãe me disse faça por onde, meu pai me disse não desista, minha mãe me disse nem sempre é a hora, meu pai me disse vá embora quando não der mais, minha mãe me disse tente outra vez, meu pai me disse vá em frente, minha mãe me disse olhe para os lados, meu pai me disse crave uma bandeira, minha mãe me disse plante um jardim, meu pai me disse criei um império, minha mãe me disse compartilhe, meu pai me disse erga a voz, minha mãe me disse ore em silêncio. Não é uma competição, não é lá e cá, é apenas um jeito de cada um ser e amar. Amar, esse verbo intransigente direto e indireto que faz a gente construir castelos, Taj Mahal, jardins suspensos, como também provocar guerras. Meu pai é a força do fazer - o que me alimenta - minha mãe, a de ponderar - o que me faz seguir e vencer.
Comecei a ler António Lobo Antunes pelo Memória de Elefante. É o livro de estreia do autor português. Logo que foi lançado, em 1979, tornou-se um grande sucesso de vendas. É fato que parte da crítica não o recebeu bem, mas, segundo o próprio Lobo Antunes, crítica nenhuma foi tão dura quanto a do seu pai, João Alfredo Lobo Antunes, quando, ao ler o livro, disse para o filho: “isto não é literatura” O Memória de Elefante não é um livro difícil como os que Lobo Antunes escreveu tempos depois. Mas toda essa complexidade que hoje é atribuída ao autor – e que ele nega – já está, de alguma forma, em gestação nesse livro: o estilo denso, a narrativa não-linear, fragmentada, o fluxo de consciência, a simultaneidade do tempo, e a poesia - sim, Lobo Antunes era um poeta. Como não? O que ainda não há nesse livro é a sobreposição de vozes: a polifonia. Esta, ele só vai utilizar, e de forma cada vez mais extrema e complexa, nos livros posteriores, como O Fado Alexandrino, A Ordem Natural das Coisas,...
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