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Não saber perder pode ser perigoso.

Saber perder não está nas regras do jogo, mas faz parte do jogo. Se, de antemão, sabe que vai ganhar ou perder, pra que jogar? O barato está em não saber. Tá, tudo bem, entendo que perder não é uma coisa lá muito agradável. Sei que nem todo mundo pode ser como a Cinderela que perdeu o sapato e mudou completamente de vida, para melhor, diga-se de passagem. Mas, o que quero dizer, é que na maioria das vezes, ou em todas, o bom mesmo é abrir mão. Aceitar que perdeu e pegar o caminho de volta. Segurar cachorro morto não tem sido lá um bom negócio, pode apostar.
Explico: começando pela minha área, um aluno quando ganha nota alta, diz que ele a tirou, já quando tira nota baixa, fala que isso é lá com o professor. Um time quando perde, vez ou outra, joga culpa no juiz. Sei que tem muito juiz por aí com muita culpa no cartório, mas dizer que um homem sozinho com um apito pendurado no pescoço conseguiu vencer todo um time, é demais da conta, não?
Na minha adolescência, eu tinha um amigo que gostava muito de jogar bola. Se achava um verdadeiro craque. Só que na verdade não jogava era nada. Pra piorar, era o dono da bola. Quando o time dele já saía ganhando, ia até o final do jogo e comemorava pelo estádio inteiro. Se já começasse levando alguns gols, pegava a bola e se mandava, ia embora, não tinha mais jogo.
Guardando as devidas proporções, isso me lembrou outra coisa. Vocês já assistiram à Marguerite, uma comédia dramática inspirada em uma história real de uma cantora de ópera que era insuportavelmente desafinada, mas que ninguém tinha a coragem de dizer-lhe isso na cara? Nem o marido dela teve essa coragem. Bom, spoiler, pelo menos pra mim, não me estraga o filme, pelo contrário, me incentiva a assisti-lo. Então, Marguerite Dumont era, nos anos 20, uma senhora rica e apaixonada por ópera, e escudando-se apenas nisso, costumava cantar para os seus chegados. O problema é que ela de tão apaixonada pela ópera, resolveu cantar para os verdadeiros apreciadores dessa arte. Decidiu, então, apresentar-se na Ópera Nacional de Paris. Bom, fato, foi um verdadeiro fiasco, ou, na melhor expressão: uma merda – se isso aqui fosse uma redação do enem eu já teria zerado. Eu mesmo zerei algumas que me apareceram com esse vocabulário indevido - é, uma m... quer dizer, um fiasco.
Bom, vou ver se retomo a ponta desse cordão. A verdade é que ela só conseguiu entender que não cantava nada quando ouviu a própria voz gravada. Ouviu, caiu pra trás e, acho que morreu, não lembro. Ou seja, não aceitou que perdeu. Se tivesse aceitado, muito provavelmente, teria vivido mais e ouvido os melhores cantores de ópera nos melhores teatros do mundo. Ela podia pagar. Têm pessoas que não aceitam perder e até descontam em relógio antigo, presente de rei, histórico, feito de casco de tartaruga e bronze, ou seja, sem preço. Deixa pra lá, tô de saco cheio desse assunto. Vamos em frente, ou melhor, voltando um pouco. Em1865, John Wilkes Booth – alguns teóricos dizem que ele era um ator conhecido, outros, que era um verdadeiro fracassado. Não importa – deu um tiro na cabeça de, nada mais nada menos, Abraham Lincoln, presidente dos Estados Unidos. Lincoln morre no dia seguinte por não suportar os graves ferimentos. Booth, tempos depois, é encontrado numa fazenda, na Virgínia, morto, evidentemente. Dizem que resistiu à prisão. Pera, não fugi do assunto, apesar dessa tragédia toda, tô ainda falando de não saber perder. Então, Booth, dizem, além de ator era também ex-espião dos confederados na Guerra da Secessão. Não satisfeito com o resultado das eleições presidenciais que acabou dando vitória a Lincoln, puto também pela derrota dos sulistas, e ainda mais puto, se é possível, com a emancipação dos afro-americanos nos Estados Unidos, resolveu fazer a m....perdão, decidiu dar cabo do carismático e grande orador 16º presidente dos estates. Ou seja, não saber perder pode também colocar a vida de alguém em perigo.
Amigo, a coisa é simples como fazer um O na areia com uma quenga: se vai jogar, não apenas leia as regras do jogo, mas também fique atento ao que pertence ao jogo, à saúde da competição, o respeito pelo adversário - se ele for superior ou inferior, não importa - . Não faça como a França, que nessa última copa, atribuiu a derrota do time ao juiz. Nem se deram conta do lindo futebol que as duas equipes rivais proporcionaram ao mundo todo.
É isso. Se ganhar, grite, berre, esperneei, beba todas, comemore. Só não solte fogos: os pets agradecem. Se perder, desamarre a chuteira e vá pra casa. Vá consciente de que se jogou limpo e deu o seu melhor, você já é, de uma forma ou de outra, também um vencedor. Do contrário, amigo, reforço: se não sabe brincar não desce pro play. Está dito.

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