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O forte apache & o Jipe que anda

Quando criança, eu tinha dois desejos mais constantes: ganhar um Forte Apache e um jipe que anda. Sobre o último, meu pai tirava o maior sarro comigo, quando, no Natal ou no meu aniversário, ele me perguntava, já sabendo a resposta, obviamente, o que eu queria ganhar. “Um Forte Apache e um jipe que anda, claro!”, eu logo respondia. E ele troçando, logo rebatia, “Ora, mas quem iria querer ganhar um jipe que não anda?” Na verdade, o jipe que eu queria era da empresa Q’uianda. Nem sei se é assim que se escreve e sei lá também de onde era, muito menos o porquê desse nome. Já fechou, há muito tempo. O que sei é que eu queria um jipe que andasse, ora.
Então, no Natal, ou no meu aniversário, eu ficava num pé e no outro. No final do ano, a expectativa era ainda maior, porque meu pai e minha mãe iam juntos comprar os nossos presentes. Já sabíamos como a coisa funcionava: os dois ficavam zanzando pelas lojas, todo o dia. Voltavam tarde, cheios de pacotes e mais pacotes, mas sempre sem o meu Forte Apache e o meu jipe que...ah, vocês sabem.
Não sei mesmo como foi que eu me apeguei ao jipe. Vi em algum comercial, acho, não sei precisar. Mas sobre o Forte Apache, lembro-me como se fosse hoje. Era um domingo, as lojas estavam fechadas. Minha mãe me levava pela mão, e eu ia olhando as coisas. De repente, ela parou em frente a uma loja de brinquedos. Era uma daquelas que, pela porta, com brechas em formato de losango, dava pra ver tudo lá dentro. E ali estava ele, imenso: os índios tentando invadir o forte, os lagos, as carruagens, os arbustos, a cavalaria, o gado, os cavalos, tudo. Olhei tanto e tanto aquilo que a minha testa ficou cheinha de losangos. Depois daí, a coisa entrou no sangue e foi para o corpo todo.
O tempo foi passando, passando e o fato é que nunca ganhei nenhum dos dois. Sim, hoje entendo. Era um luxo, dois luxos. Brinquedos de meninos ricos, e definidamente, eu não podia chamar os meus pais de ricos. Trabalhadores, sim, muito, os dois. Todos os dias, o velho levantava-se quando o sol ainda se remexia e bocejava sob os cobertores. Minha mãe ia um pouco depois. Voltavam então, no início da noite, com ares de cansaço e preocupação. Entendo isso, e tudo certo. Mas a verdade é que essas coisas não saem da gente num passe de mágica. Amor e desejo, algumas vezes, caminham por estradas paralelas.
Já adulto, num desses momentos de divagação sobre as flechas douradas e certeiras do passado, lembrando do dia em que vi o Forte Apache a ponto de ter de passar a mão na testa porque sentia as marcas dos losangos – sentia também o cheiro de ferrugem da porta - decidi que ia me dar um Forte Apache de presente. E saí para comprá-lo. Na loja, fui dizendo ao vendedor que tinha isso e aquilo, aquilo outro e mais isso e aquilo. No que ele rebateu que dessa forma, precisaria de quatro ou cinco fortes. Eu concordei. Tudo certo. E assim foi. Quando o cara montou o brinquedo, num grande espaço do apartamento que eu tinha reservado exatamente para isso, fiquei deslumbrado. Passei todo o dia olhando para ele. Quando chegava a casa, a primeira coisa que fazia era ir olhar o meu Forte-Apache, lindo, com tudo ali acontecendo parado. Dava-me um troço bom só de olhar para ele.
Bom, referente ao meu outro desejo, o jipe que anda, eu já havia desistido. Primeiro, porque os caras tinham parado de fabricá-lo, como já disse, e outra, com certeza eu não caberia mais dentro dele. Mas um pássaro, é certo, consegue voar apenas com uma das asas, pelo menos por um tempo, né? Então, estava bem contente com o meu Forte. Só que o mundo muda, as pessoas mudam, demoram, mas mudam, então, essa coisa de cavalaria matando índio, tomando as coisas, conquistando terras, invadindo espaços, sangue, brigas e intrigas, sei lá, começou a entrar no meu, até então impermeável, mundo fabuloso. Fato é que, depois de um tempo, resolvi me desfazer do meu tão querido Forte Apache. Mas isso já é lá outra história, depois conto aqui. Bom, com tudo isso, e depois disso tudo, aprendi, ou pelo menos acho que aprendi que, em alguns casos, especialíssimos, sonhar é melhor que vivenciar.

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