As lembranças são geniosas. Tomamos banho, nos arrumamos, nos penteamos com a dedicação de um ourives. Então, logo ao dobrar a esquina vem um vento a baroeste e assanha a nossa cabeleira. As lembranças são como os ventos traiçoeiros, mas elas assanham também a nossa alma. E fazem isso pra valer. Mas o que seríamos sem elas? Somos uma soma daquilo que lembramos e esquecemos. É como dizia uma escritora que amo, a CL: "Aquilo que esquecemos não se perde, mas sim, é incorporado a nossa personalidade". Ela dizia isso. E eu digo o mesmo, acrescento apenas que essas lembranças que vão para o universo etéreo humano, ficam ali, como frutas numa fruteira, só aguardando que uma hora ou outra, estendamos a mão no nosso afã do tempo com sabor de iguaria de vó, de passado quente de forno cheirando a bolo de receita passada de geração em geração.
A intenção mesmo era levar esse texto por outro lado, pela margem esquerda do rio, de preferência, mas essa coisa de lembranças, coisas que vêm pela mente, passa pelo nariz, e depois se aloja na alma não é nada fácil de se desapegar. É como caramelo preso no céu da boca, chiclete colado sob a mesa, risco de caneta bic - ponta grossa - no rosto de boneca. Olha eu de novo aqui. Bom, eu tomava um banho, me arrumava, penteava horas e horas os meus rebeldes cabelos para depois sair para comprar um disco que tinha acabado de ser lançado. Uma novidade. Coisa que esperávamos por dias e dias a fio. E lá ia eu com minha calça boca de sino, fivela astronômica brilhando mais que o sol. No bolso, a mesada arrancada quase a mesadas. “Tá juntando o dinheiro pra alguma coisa útil, fio?”. “Tô, pai. Tudo joia. Um dia, com esse dindin mandarei erguer o meu Taj Mahal”. E eu comprava o disco. Podia ser o Araça Azul, o Álbum branco, O revólver, Do boi só se perde o berro, o Orós, ou mesmo o The King is alive. Qualquer um desses, entre outros. Aproveitava para comprar uma agulha nova. Quase ninguém notava a diferença de uma nova para uma velha. Eu notava. E isso fazia uma diferença grande. Mas o grande barato não estava na qualidade disso ou daquilo. Estava no ritual de sair, de andar pelas ruas, de sentir o vento na cara como uma companhia dos deuses invisíveis, de pôr aquela roupa que já se perdia na sedução das naftalinas, e principalmente, da emoção de voltar com o novo disco para saber o que um dos nossos ídolos pensava sobre o mundo. Com certeza devia estar bem inquieto com ele.
À noite, ou de preferência num domingo à tarde, com o sol já querendo sentar-se no batente e esquecer a sua ira, levávamos a radiolinha vermelha, ou mesmo A Três em Um – quando estávamos mais dispostos – para a calçada e botávamos para tocar todos os nossos discos. E repetíamos a exaustão o disco novo. Repousávamos a agulha no início do vinil, depois que terminava um lado, íamos para o outro, e assim fazíamos com todos. Nunca pulávamos uma música, não, isso seria um sacrilégio – os caras eram mesmo bons, ou éramos mais pacientes? – deixávamos tocar e enquanto isso, ficávamos em divagações, falando sobre um futuro que não seria nada daquilo que imaginávamos dele.
Se emprestávamos os nossos discos queridos? Muitos não, mas alguns, sim. Eu emprestava, mas antes colocava um carimbo – sim, eu mandava fazer um carimbo – bem no selo, ali, perto do furo. Era uma coisa mais ou menos assim: “este disco pertence a Reynaldo Bessa. Se a pessoa que estiver com ele não for o dito-cujo é porque esse disco está emprestado ou foi roubado”. Não sei se era isso, mas bem próximo. Mas eu emprestava, porque eu pensava que uma coisa boa se torna melhor quando você não a saboreia sozinho, assim, como o amor, sabe? E sobre isso de emprestar, como comecei citando a minha escritora predileta, a CL, vou encerrar com ela. Ela dizia uma coisa linda: “Um pouco de perfume sempre fica nas mãos de quem oferece rosas”. É isso mesmo.
Comentários
Postar um comentário