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Os olhos de dentro

Uma vez li em algum lugar que um piloto de avião, fazendo um voo de algumas boas horas, passa uma pequena parte da viagem de olhos fechados. Isso, no primeiro momento pode soar assustador: uma aeronave pesando toneladas, viajando a uma altura de dez mil metros ou mais, numa velocidade de mil quilômetros por hora, e o maior responsável por ela, e pela segurança de todos os passageiros, guiando de olhos fechados.
Certo, mas o fato é que mesmo assim, ele pousa o avião em segurança e todos os passageiros logo tomam as suas vidinhas de sempre. O artigo que li dizia que ele viaja algum tempo - tempinho, vai, - de olhos fechados porque os nossos olhos, queiramos ou não, precisam piscar. Sim. Todos nós, pilotos de avião ou não, fazemos isso: piscamos. Falei isso tudo porque, logo ao ler o artigo, me pus a pensar e a calcular quanto tempo passamos de olhos fechados no curso da nossa breve existência, que também pesa toneladas e voa a milhares de metros de altura e a uma velocidade sem tamanho. Acho que nessa viagem passamos mesmo um bom tempo de olhos bem fechados. Será por isso que algumas vezes não conseguimos ver alguns sinais que a vida nos envia? Por diversas vezes, ela me acenou e eu não vi. Eu acho. É certo que há coisas que não queremos mesmo ver, mas não podemos passar toda a vida querendo isso. Por exemplo, reluto em não ver o passado. Não porque geralmente, ele dói, mas sim, porque sempre que eu tenho de o reler, inquieta-me a impossibilidade de corrigi-lo, retocá-lo, assim como um escritor faz em um dos seus textos. Sabe aquela vírgula que faltou ou aquela que sobrou, aquele ponto que na verdade não era um, mas sim, dois? E o que é pior, sabe aquele advérbio de tempo, por exemplo: "sempre" que você gostaria de alterar para "raramente"? Mas não posso. E o passado só tem uma única edição. Não pode ser corrigido na próximo tiragem, pois os novos erros ao futuro pertencem. Mas isso é coisa de escritor, sim, isso de querer rever tudo.
Mas eu não quero falar de ver, rever, mas sim, de não ver. Aquilo que não percebemos porque estamos de olhos fechados, queiramos ou não. Bom, tudo isso me fez lembrar de uma história. O músico, maestro Villa-Lobos estava tentando compor uma música em meio a uma algazarra de várias crianças endiabradas. Gente da família dele. O barulho era infernal. E ele, a todo custo e paciência, procurava a nota precisa para a sua nova composição. Então, alguém já desesperado com a luta do compositor, perguntou-lhe: "maestro, você não carece de um lugar mais silencioso?". No que ele zenbudistamente, respondeu: "não, eu escuto com o ouvido de dentro". Existe um ouvido de dentro? Perguntei-me logo que ouvi essa história. Se Villa-Lobos disse que existe é porque existe, ora. Mas então, se há ouvido de dentro, deve haver também olho de dentro. Deve existir é mesmo um ser inteiro de dentro e deve ser esse que ouve e vê tudo, independentemente, do mundo externo. Pode ser isso. É como dormir e sonhar acordado. Sonhar do avesso. Sonhar desperto.
Digo tudo isso porque, um dia, no metrô, uma menina me olhou toda a viagem. Com os olhos de fora, evidentemente. Eu via, mas penso que, naturalmente devo ter piscado, pois acho que não peguei tudo. Antes de ela partir de vez, sorriu para mim, e nesse momento, fez isso com toda a força e verdade dos lábios e dos dentes de fora e de dentro. Eu vi, isso, eu vi, e fiquei ali, enquanto o trem nos separava de vez. Acho que nessa hora não pisquei, pois até hoje vejo aquele sorriso e aquele olhar. Vejo e sinto tudo isso com meus olhos e todo o meu ser de dentro. Bem de dentro.

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