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Tempos líquidos

Se eu gosto de novelas? Atualmente, não, mas já gostei, e muito. Não perdia um episódio sequer de O bem-amado, Saramandaia, Irmãos coragem, Véu de noiva, Selva de pedra, Gabriela, entre tantas outras. Ah, chorei muito com o Tony Ramos, em Pai-herói, num papel meio à la São Francisco dos anos 70. O Tony tem aquele jeitão de certinho, de bom moço, fala pouco e manso, mas faz qualquer papel e faz bem. Ele me lembra o Dustin Hoffman que tanto pode fazer Kramer vs. Kramer quanto Tootsie. É um dos poucos que admiro. Vez em quando, ainda paro no meio da sala, com o prato da janta na mão, e fico olhando ele atuar. A maneira como ele pronuncia as palavras, vivencia o momento, a emoção que coloca na coisa toda. Como não acreditar? Tudo muito natural. Sem a afetação de alguns atores que não aprenderam ainda que não precisam gesticular demais, nem falar alto demais. Ora, estão num estúdio de gravação, certo? Um amigo, diretor de teatro, disse-me uma vez que, no universo do teatro, a gesticulação acentuada, a impostação e projeção da voz eram necessárias. A primeira, porque a plateia, principalmente, os lá da retaguarda, precisavam acompanhar bem as cenas, ver quem estava atuando e o que acontecia mesmo no palco. A segunda, porque precisavam também ouvir o que estavam falando. Tinham de seguir a história, caso contrário, podiam dormir ali mesmo, ou ainda pior, abandonarem a peça. Ele disse ainda que não chegávamos nem perto da acústica de um teatro da Grécia Antiga, mas, muitos espaços hoje em dia já possuem uma excelente acústica e recursos de som de primeira. Além disso, alguns teatros são bem pequenos. Portanto, ele disse, que já estava na hora de os atores abandonarem essas características acentuadas. A não ser, claro – ele acrescentou – em situações muito específicas.
Não sei se o que o meu amigo disse procede, mas confesso que quando vi a Renata Sorrah, no monólogo Shirley Valentine, chego a concordar com ele. Ela falava como se estivesse na sala da casa dela. On the other hand, quando vi a famosa peça do Molière, O Doente Imaginário, com o Cacá Rosset, não saí mesmo do teatro impregnado de toda aquela hipocondria e avareza. Devia, mas não saí. Uma pena. O texto é incrível. Bom, mas tava falando do Tony. Sim. Sem falar na trilha sonora. Aproveitando, digo e reforço, Pai, música e letra do Fábio Júnior – é, o Fabinho já fez coisa boa – é uma das músicas mais lindas que já fizeram até hoje sobre o tema. Para mim, uma obra prima. Pena que o Fábio perdeu a mão. Seguiu outras trilhas. Então, sobre as novelas, havia também essa coisa das músicas. Nem todas eram incríveis, mas vez em quando, aparecia uma ou outra que virava mania. Sol de primavera, do Beto Guedes, Noturno (Coração alado), com o Fagner, Pavão Mysteriozo, do Ednardo, e muitas outras. As novelas eram um grande celeiro de confluências: o cinema, o teatro, a literatura, os grandes cronistas, a moda, a música, tudo.
Havia ainda os grandes autores. A Janete Clair escreveu pelo menos dois dos grandes sucessos que eu pude acompanhar e, assim, rolar na rede, ansioso pelo dia seguinte pra saber o que ia mesmo acontecer. O Dias Gomes com seu estilo próprio, brasileiro. Foi ele quem trouxe o Realismo Mágico para dentro de nossas salas. O Gabus Mendes que botou charme, descontração e graça nas telenovelas das sete, e com estilo. O Gilberto Braga que projetou a teledramaturgia brasileira para o mundo. O Bráulio Pedroso que começou, com seus textos, a tirar uma onda com a burguesia.
Ah, eu gostava sim. Confesso. Às vezes, minha janta esfriava no prato. Eu só voltava a comer quando o nó desenrolava. Meu pai olhava, mamãe chorava, minhas irmãs sonhavam, meu irmão arfava. E eu? Tudo isso ao mesmo tempo. Lembro-me que meu pai, logo que entrava o comercial, levantava-se e ia lá fora, enxugando os cantinhos dos olhos com as pontinhas dos mindinhos e dizendo: “gente, isso é tudo mentira, tudo mentira!”. Mas um pouco antes de começar a novela, ele era o primeiro a sentar-se no sofá e aguardar em completo silêncio. Não permitia um barulho sequer durante a novela. Ah, ele adorava o Cuoco, o Tarcísio. Quando os atores começavam a se beijar, ainda naqueles beijos bem técnicos, alguns até no estilo bem teatral do Clark Gable, alguém na sala rompia o silêncio e dizia: “isso é mesmo uma sem vergonhice". - logo meu pai soltava um sonoro psiu - mas, no dia seguinte, a pessoa logo esquecia a sua pudicícia, e já estava lá na sala, ansiosa para prestigiar aquela sem vergonhice ainda cheia de vergonhas.
As novelas até ditavam moda. Lembro muito de uma gargantilha que fez muito sucesso no pescoço do bonitão e tão sonhado pelas mulheres da época, o Mário Gomes. Quando eu colocava a gargantilha, eu era o Mário Gomes. Sim, as novelas ditavam modas, mas não era esse comércio exacerbado de hoje, essa propaganda desenfreada de produtos dentro da própria novela. É difícil, atualmente, acreditar numa cena quando, de repente, mais que de repente, avista-se O Banco do Brasil, ou o Bradesco, ali, mesmo que de viés. Principalmente quando estamos devendo a um deles, ou aos dois ao mesmo tempo. Ah, é muito difícil concentrar-se na fala de uma atriz enquanto ela coloca algumas gotinhas - no café - de uma marca de adoçante que você conhece, mas que sabe também que o produto não é muito comum nas mesas da massa. Principalmente, as daqueles que amam as novelas. E as crianças? Nunca são apenas crianças. São sempre crianças-prodígio e, principalmente, adultas. Bom, e tem também o roteiro, o texto: é sempre alguém que quer alguém e mais alguém para impedir esse alguém de querer alguém. Resumindo. Tá vendo como é fácil? Não dá, não dá.
Sim, gostava mesmo de novela. Hoje, não gosto mais. Além disso, não tenho tempo. Não consigo nem mesmo acompanhar os complicados episódios da minha própria vida, que se tornou uma novela. Até perco alguns deles e no dia seguinte, preciso perguntar a alguém o que aconteceu comigo ontem. Eu tinha tempo, espaço, era ingênuo, né? Além do mais, eram outros tempos, havia toda a minha família. Bom, depois que minhas mãos e meus pés começaram a crescer antes de tudo e deixei de me confidenciar com a goiabeira lá no quintal e passei também a não mais me contentar apenas com o grande talento das lindas atrizes, mas sim, a sonhar em sair com elas, era hora de parar. Eu já estava misturando as coisas. Nada demais até aí. Apenas estava crescendo. Precisava fazer agora como o Fábio Júnior: buscar a minha alma gêmea.
Agora, se fizerem novelas à altura das da minha época, quem sabe eu volte a assisti-las. Mas eu acho muito difícil. Tempos líquidos pedem grandes atitudes. Aproveitando-me aí, de um conceito do filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Mas penso que é pra lá disso. Olhe, olhe.

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