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Um verdadeiro oásis

O dono precisa fechar o bar, e o bêbado precisa beber todas. Eis um conflito. Um dos garçons diz: “amanhã é outro dia”. Não existe outro dia para o bêbado. Quer dizer, existe, mas isso é conversa para depois do depois, não para noites endiabras. Para o bêbado só existe a viagem etílica do momento, aquela sensação de que tudo é possível, principalmente, se estiver de braços e abraços com uma dessas mulheres lindas, de pernas longas, e que molemente, mexe na mecha e deixa todos de queixo caído. Uma dessas mulheres que nunca chegam e nunca partem, porque estão sempre em trânsito e que só podem ser vistas, mesmo que de esguelha, num aeroporto internacional já quase amanhecendo como disse uma vez o mestre Braga. Assim, não há quem possa com o bêbado. Ele pode fazer a montanha e Maomé caminharem juntos e felizes.
No dia seguinte o bêbado já não mais será o mesmo. Será um quase bêbado. Muito provavelmente, nem se lembrará mais do bar onde bebeu, nem da cara do garçom, muito menos que este disse: “amanhã é outro dia”. Mas não se engane, o bêbado esquece, mas intui bem. Por isso, no dia seguinte, quando vai à padaria em seus passos titubeantes e com o estômago estranhando o lugar que habita, o bêbado, de viés, ainda sob os efeitos das tantas Brahmas litrão, olha de cara feia para o garçom. De repente, nem foi o que disse a fatídica frase, mas tá valendo.
Conheci alguns garçons e sei que o sonho da maioria deles é fechar o bar e depois ir jogar bilhar no famoso Taco de Ouro (nem sei se ainda existe) para rodadas e mais rodadas de jogadas regadas a conhaque presidente. Fui muitas vezes lá, logo ao sair do bar, depois de tantas e tantas notas lá. Fui e muito aprendi. Aprendi que se você quiser se dar bem na noite, precisa fazer amizade com os garçons. Eles carregam todas as chaves invisíveis dos segredos das noites. Há lâmpadas de Aladim sob os seus paletós brancos-três-botões. Há muitos feitiços em seus passos de bailarino apressado e silencioso pelo salão que eles conhecem mais que as suas próprias camas. Eles são como as costureiras que lidam com as bainhas das roupas, com os remendos, os defeitos. Um garçom pode até arranjar a melhor mesa no céu, quando você, leitor, enfim, bater as botas. Pode apostar. Aprendi isso. Aprendi também a jogar bilhar. E pra quem não sabe, esse jogo tem muito a ver com a vida. Bom, penso que você, leitor, já se viu numa situação delicada, aquela que nos deixa entre uma coisa e outra, por exemplo, se paga o cartão de crédito ou se compra um patinete, - prefino patinete no masculino - e de repente, sei lá, usou a expressão: “numa sinuca de bico”. De onde pensa, então, que saiu isso? Da sinuca, óbvio. O jogo, de uma forma ou de outra, te mostra como fazer. Se na prática, na vida real vai funcionar, isso vai depender de alguns fatores. Primeiro, se você é um bom jogador, segundo, se sabe correr. Bom, o filósofo grego, quer dizer, cearense, Falcão, dizia que dinheiro não é tudo, mas é cem por cento. Por aí. Veja, precisa sempre ver por outro lado, entende? Ou como dizem os acadêmicos: “por outros vieses”.
Bom, vi alguns garçons, os melhores, sim, bicando o conhaque e jogando sinuca feito um rei. Ali, não existem mais o dedo em riste do patrão, nem as reclamações maçantes dos clientes. Ali, só existe o Taco de Ouro e o conhaque presidente. O resto pode esperar.
E o sonho do bêbado? Bom, como um sedento, no deserto, deseja encontrar um lugar para matar a sede, fugir do sol abrasador, e poder descansar um pouco as canelas, um bêbado também sonha encontrar um oásis. Não aquele com sombra e água fresca, mas sim, com cervas bem geladas servidas numa mesinha ensebada, ali, já quase terminando a calçada. No final da noite, um bar aberto é mesmo um oásis. Se o bebum já estiver pra lá de Uiramutã, o bar pode até parecer dois oásis, o que por um lado é bom, afinal de contas são dois bares abertos no final da noite. Por outro, ele vai precisar decidir em qual deles vai beber. E só.
Um bêbado sonha com isso, mas sonha ainda mais poder beber, nesse bar, toda a sua eternidade etílica e, de preferência, que nenhum garçom venha com essa história de: “Amanhã é outro dia”.

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