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A chuva

Isto não é uma piada. Aconteceu mesmo, e o que é pior, comigo. Eu sempre fui muito a Minas, Belo Horizonte. Fiz inúmeros trabalhos por lá. E sempre gostei muito. Gosto da cidade. Poder caminhar pelas ruas, ouvir as pessoas, parar numa banca e comprar alguns palheiros e sair fumando como se a vida não fosse mesmo essa armadura desengonçada, sentar-me num daqueles bancos tão solitários quanto eu e olhar as árvores numa mudez verdinha - muitas delas já estavam ali muito antes do meu pai conhecer a minha mãe - enfim, tudo isso sempre foi um imenso prazer pra mim.
Os homens, em suas caminhadas, de camisa aberta e sandálias de tiras, sentam-se do seu lado no banco e num silêncio de esfinge permanecem como se você, ali, ao lado deles, não se encontrasse. Mas se você puxa assunto, eles olham com aqueles olhos de escafandrista, e então, num português próprio – do qual se orgulham - logo contam alguns episódios da sua vida, mas sempre pelas beiradas, como quem come uma canjica, um mingau bem quentes. Depois que se vão, ficamos com a impressão de que nem abrimos a boca e eles agora sabem mais de nós do que nós deles. Como pode?
Mas como disse, eu estava a trabalho – acho que disse – e logo precisaria ir para o hotel e adiantar algumas coisas. Eu ia dar uma palestra num espaço cultural – muito bonito, por sinal – depois haveria uma sessão de autógrafos, e após isso, como sempre faço, terminaríamos no Malleta para uma noite regada a vinhos, palheiros e bate-papos, logo ali, naquela rua de ventos agradáveis, onde árvores nos banham de folhas. É uma cidade de muitos carros, mas ainda não perdeu o cheiro que vem das flores, do verde, das montanhas. Espero que fique assim até o sol converter-se em uma anã branca.
Estava deitado na cama, olhando para o teto e sem pensar em nada. Esse tipo de quase transe experimentado tanto pelos gênios quanto pelos seres comuns, assim como eu. Esperava a hora de seguir com os trâmites do que pretendia fazer no espaço: o que dizer, como dizer, quando dizer, o tempo de dizer, essas coisas. Foi quando ouvi um trovão, depois outro, então, veio um vento desses que muito provavelmente ajudaram a afundar a ilha de Krakatoa, fez-se um silêncio terrível, depois caiu o mundo. Esperei um pouco. Pensava que pela violência da água, logo pararia de chover. Em Sampa não tememos tanto essa chuva. O mundo volta depois dela – não todo, mas volta - Temos mesmo medo da chuva fina que nunca tem fim e que, com a paciência e a sutileza de um monge zen, alaga tudo, derruba tudo, cava o chão e estraga os cabelos das mulheres. E o que é pior: os cabelos daquelas que acabaram de sair do cabeleireiro.
Bom, a chuva não passava mesmo. Tinha diminuído a sua ira líquida, ok, mas ficou ainda ali como uma praga de faraó. Ora, eu precisava seguir, né? Gosto de doces, mas isso não quer dizer que eu seja de açúcar. O trabalho me esperava. Saí me esgueirando pelas marquises, mas não adiantou muito. Á chuva de Belo Horizonte parece perpassar as marquises e cair bem sobre nossa cabeça, tronco e membros. Mais fácil seria desviar-se das balas num front de uma das Grandes Guerras.
Ensopado, triste, acabrunhado, papeis dilacerados, borrados, sapatos quase que gargarejando e meias feito papa dentro deles, assim, dirigi-me até um bar, onde a maioria apenas tentava ali, fugir da chuva – e esse era um bom motivo para tomar umas – e logo interpelei um senhorzinho que me pareceu muito bonzinho, simpático, e já com uma boa idade - o que para mim, era um bom argumento para ele não querer maltratar um forasteiro, principalmente, no estado em que me encontrava - olhei, então, para ele com um olhar de cachorro diante da televisão de padaria e lhe perguntei se ficava muito longe o lugar onde eu iria dar a palestra. Nem precisei mostrar-lhe o endereço. Numa compenetração risonha, me vendo e me ouvindo com aqueles olhos de pergaminhos, apenas ergueu os lábios como se fosse beijar alguém e disse-me: “bem ali”. Notei uma sutil inquietação em seu semblante, feito arbustos mexendo-se com um vento leve, quando notou que eu ainda me encontrava ali, diante dele. Então, titubeante, logo tratei de repetir a pergunta. Agora buscando uma outra abordagem: “Então, tá chovendo muito, né, não fica mesmo longe este lugar?”. O que eu queria, mas sem verbalizar, era ver se haveria outra possibilidade de se chegar ao local sem mais estragos diluvianos. Enfim, aquela chuva estava me tirando os nervos e a vontade de estar ali. Não foi má vontade, desinteresse, indiferença, nada disso. Aqueles homens são objetivos como um tapa. Qualquer coisa que possa enrolar ainda mais a vida, eles estão fora. Apenas isso. O que ele me respondeu foi: “Uai! com chuva ou sem chuva, o lugar é bem ali”. O resto fica para outra história.

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