A rede social é a grande calçada onde muitos falam e poucos escutam. Não escutam porque são surdos, não, mas porque estão longe demais uns dos outros. Ou porque não querem, não ligam, não sentem. E nessa calçada não há lua nem vaga-lumes, menos ainda o ranger de cadeiras nem um "oi" vez em quando para um ou outro passante. Não há vó cochilando na velha cadeira de balanço, nem vira-lata dormindo encolhido, com um olho fechado e o outro na expectativa de algum naco de carne ali. Há tantos nessa calçada longa e fria. Quando não nos escutam, precisamos gritar em caixa alta, quando, na verdade, gostaríamos de sussurrar em minúsculas e doces vogais e consoantes íntimas de aconchegos, como quando a gente come com um prato na mão e o garfo na outra, sentado no espaldar do sofá, enquanto assiste à televisão.
Gosto da pequena calçada, aquela sob o velho ipê que se derramava sobre nós feito um bebê chorão. Às vezes, até podíamos ouvir a lua, presa nos galhos da velha árvore, tentando seguir a sua trilha de sempre.
A velha calçada de guerra onde minha vó ronronava feito um gatinho. E quando chegava uma cadeira, depois vinha outra e depois mais outra e logo a calçada estava cheia. E quando um falava os outros ouviam. Não precisávamos gritar, nem esperar por uma resposta. Ah, ver aqueles besouros sob as luzes dos postes. Não havia medo nem pressa. As intrigas, podíamos resolver ali mesmo, olho no olho, verdade na verdade.
Depois a lua ia longe, o sono vinha, e vinha também um pouco de frio ou vento, folhas caíam, as damas da noite soltavam o seu perfume, e vinha aquele gosto bom de dormir. A rua ia mergulhando num silêncio de véu, ouvia-se o barulho dos ferrolhos, das chaves girando em sonolências de ferro e ferrugem. E logo todos estavam dormindo. Era tudo tão real, tão real que parecia um sonho. O sonho de apenas viver o que tem de ser vivido, cada coisa no seu tempo e lugar. Para que a pressa quando já somos felizes?
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