Pular para o conteúdo principal

A grande calçada

A rede social é a grande calçada onde muitos falam e poucos escutam. Não escutam porque são surdos, não, mas porque estão longe demais uns dos outros. Ou porque não querem, não ligam, não sentem. E nessa calçada não há lua nem vaga-lumes, menos ainda o ranger de cadeiras nem um "oi" vez em quando para um ou outro passante. Não há vó cochilando na velha cadeira de balanço, nem vira-lata dormindo encolhido, com um olho fechado e o outro na expectativa de algum naco de carne ali. Há tantos nessa calçada longa e fria. Quando não nos escutam, precisamos gritar em caixa alta, quando, na verdade, gostaríamos de sussurrar em minúsculas e doces vogais e consoantes íntimas de aconchegos, como quando a gente come com um prato na mão e o garfo na outra, sentado no espaldar do sofá, enquanto assiste à televisão.
Gosto da pequena calçada, aquela sob o velho ipê que se derramava sobre nós feito um bebê chorão. Às vezes, até podíamos ouvir a lua, presa nos galhos da velha árvore, tentando seguir a sua trilha de sempre.
A velha calçada de guerra onde minha vó ronronava feito um gatinho. E quando chegava uma cadeira, depois vinha outra e depois mais outra e logo a calçada estava cheia. E quando um falava os outros ouviam. Não precisávamos gritar, nem esperar por uma resposta. Ah, ver aqueles besouros sob as luzes dos postes. Não havia medo nem pressa. As intrigas, podíamos resolver ali mesmo, olho no olho, verdade na verdade.
Depois a lua ia longe, o sono vinha, e vinha também um pouco de frio ou vento, folhas caíam, as damas da noite soltavam o seu perfume, e vinha aquele gosto bom de dormir. A rua ia mergulhando num silêncio de véu, ouvia-se o barulho dos ferrolhos, das chaves girando em sonolências de ferro e ferrugem. E logo todos estavam dormindo. Era tudo tão real, tão real que parecia um sonho. O sonho de apenas viver o que tem de ser vivido, cada coisa no seu tempo e lugar. Para que a pressa quando já somos felizes?

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

obrigado, António Lobo Antunes!

Comecei a ler António Lobo Antunes pelo Memória de Elefante. É o livro de estreia do autor português. Logo que foi lançado, em 1979, tornou-se um grande sucesso de vendas. É fato que parte da crítica não o recebeu bem, mas, segundo o próprio Lobo Antunes, crítica nenhuma foi tão dura quanto a do seu pai, João Alfredo Lobo Antunes, quando, ao ler o livro, disse para o filho: “isto não é literatura” O Memória de Elefante não é um livro difícil como os que Lobo Antunes escreveu tempos depois. Mas toda essa complexidade que hoje é atribuída ao autor – e que ele nega – já está, de alguma forma, em gestação nesse livro: o estilo denso, a narrativa não-linear, fragmentada, o fluxo de consciência, a simultaneidade do tempo, e a poesia - sim, Lobo Antunes era um poeta. Como não? O que ainda não há nesse livro é a sobreposição de vozes: a polifonia. Esta, ele só vai utilizar, e de forma cada vez mais extrema e complexa, nos livros posteriores, como O Fado Alexandrino, A Ordem Natural das Coisas,...

a velha casa II

O jardim onde, nas brincadeiras, eu me escondia detrás das plantas espinhentas. Nas minhas primeiras incursões etílicas da juventude, eu tinha de pular o muro para que o portão, com seu incurável canto em falsete, não me denunciasse e meu pai se levantasse em seu arrastado de sono e fúria. A rua silenciosa, o apito do vigia, o Caravelo, mais lento que o andador da minha vó, prestes a cair sobre nós, ali, sob cobertores cheirando a amaciante e ferro de passar. Depois de rezar, em vez de dizer amém, eu dizia: “não amanheça, não amanheça”. Os dois lados escuros da casa – as lâmpadas sempre queimavam - que iam dar no quintal. Lá, a goiabeira onde chorei e sonhei e vi, dias sem fim, a menina sair do banho. O tilintar de pratos e copos dos vizinhos e a sensação de que dentro da noite eu estava protegido do mundo. Sobre a geladeira, o sarcástico pinguim que sabia mais de nós do que nós mesmos. Ali, em cima da velha cônsul asmática, ria a rodo dos nossos desencontros. A minha irmã sonâmbul...

a alça fria do peso da sua ausência

Quando meu irmão faleceu, não fui ao enterro. Adianto que não estou a justificar nada – e isso se justifica? -, mas é que meu pai havia morrido alguns meses antes e não vi mesmo força nenhuma para outra empreitada do nível ou pior. O que dói na morte não é somente a perda. Sabemos que, mais cedo ou mais tarde, morremos. É um acordo tácito, ou seja, antes de nascermos, não nos é apresentado um contrato no qual está escrito: “você vai nascer, passar um tempo – sabemos lá quanto – depois você morre. Assine aqui embaixo”. No curso da nossa vida, acabamos aceitando a ideia – aceitamos? – como um enfermo, uma hora, aceita a sua moléstia. O que machuca mesmo, e é aqui que a chapa esquenta, é a forma como a indesejada das gentes, como Bandeira gostava de denominá-la, tira-nos pessoas queridas. Melhor dizer nos arranca, sim? Porque é isso que ela faz. Lembro-me do meu pai, homem de voz de martelo de Thor com a qual até a casa se assustava. Mas era doce que nem os picolés de castanha da minha ...