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Braga & os passarinhos

Sonhei que Rubem Braga me dizia que não estava gostando nada das minhas crônicas porque eu nunca falava de passarinhos. Reforçou que um grande cronista tem de falar de passarinhos. Disse-me ainda que eu parasse de falar com literatos, que estes não sabem de nada. E outra, passarinhos não têm ego, são como crianças com asas. Eu o ouvia. Permanecia em silêncio. Como contestar o capixaba que amo desde os meus tempos de cursinho? Quando entrei na faculdade, o primeiro amigo que agradeci foi o Braga. Mas como me lembrei que era um sonho, e sonhos possuem tempos geniosos, nós sabemos, então tentei argumentar que... mas ele juntou os lábios num biquinho engraçado e logo soltou um assobio que ecoou longe. Posso ter me enganado, mas penso ter ouvido um canto como resposta vindo lá de dentro da mata. Sim, no sonho havia uma mata.
Ele me disse ainda que todos os temas de suas crônicas foram cantados pelos passarinhos. Quando ele não tinha sobre o que escrever, bastava colocar algumas sementes, umas frutinhas, jilós, também trocar a água que logo a sua varanda ficava cheia de canários, tuins, rolinhas, pintassilgo-mineiro, pintassilgo-de-cabeça-preta e até pintassilgo-capixaba. Depois, era só esperar, de caneta e papel na mão, que logo, logo sairia um tema. Sem os passarinhos, disse-me Braga, teria morrido de fome.
Eu o ouvia e até já pensava em fazer um curso sobre passarinhos ou, sei lá, comprar um livro grosso sobre todos os pássaros da terra, tipos de gaiola, alimentação, comportamento, habitat, essas coisas. Mas ainda – e sempre de olho no relógio de pulso do sonho – tentava argumentar que eu não tinha sido mesmo um menino de passarinhos. Nem de dedo nem gaiola. E que eu fui o pior atirador de baladeira da turma, e que por isso, um dos meninos, não sei se por pena ou crueldade, me propôs o ritual da baladeira de ouro. Este ritual se resumia em matar um passarinho e logo engolir o seu coraçãozinho ainda quente, cru. Era tiro certo. Diziam. Ora, eu não sabia para que queria ser um grande atirador, mas que eu queria, eu queria. Mas sabia que não tinha a menor intenção de engolir o coração de um passarinho, cru, pior ainda.
Mas, menino, né, Braga? você sabe. Então tentei matar um passarinho, aquele que parece um helicóptero, para no ar e tudo mais. “Ah, então você não conhece um beija-flor?”, ele me perguntou. Não foi fácil. Depois, segui à risca todo o ritual. O fato é que permaneci o pior atirador de baladeira da turma, ainda por cima, fiquei com um sentimento de culpa. Ela cabe na minha mão, sabe, Braga, mas é uma dor do tamanho do mundo. Disse isso, quase de uma só vez, e ele, em silêncio, apenas me olhando com aqueles olhos que veem tudo.
Então, pôs a mão em meu ombro e disse: “eu também tenho as minhas histórias de menino”. Depois olhou para o mato e gritou: “tuim, tuim, tuim”. E logo todas as árvores balançaram-se numa tempestade de tuins. Quando voltei a olhar para o Braga, ele pulou em meu dedo, depois foi para o meu ombro, deu duas bicadas em meu rosto e voou na direção dos tuins. Então, fez-se um barulho imenso como se todas as folhas das árvores tivessem sido arrancadas de uma só vez. Depois, silêncio. Um desses silêncios que nos dizem mais coisas do que todas as palavras da terra.

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